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Flavia Virginia
Livro-Mãe: Música de surpreender!
A cantora e compositora Flavia Virginia conseguiu fazer com que seu
álbum de estréia seja uma espécie de pacto mortal com
o primor dos sons e das palavras. A impressão que a artista alagoana
nos causa desde o primeiro momento em que o seu disco começa a rodar
na nossa cabeça é que ela está irremediavelmente
comprometida com o Livro-mãe e dele só se libertará,
se for para progredir. Tal a felicidade de seus versos, o impacto sensual
de sua música e o frescor de seu canto, cheio de
delicadezas.
Abrigada num selo
fonográfico, o Jam Music, que tem dado provas de que boa música
não precisa padecer ao relento, - graças a discos como o Acertei
no Milênio, de Angela Rô Rô, e o Nome Sagrado, tributo
de Beth Carvalho a Nelson Cavaquinho - Flavia dá a sensação
de que seu trabalho é uma engenhosa conspiração de elementos
musicais em perfeita harmonia com a sua juventude (ela tem 30 anos) . Isso
se dá, mesmo que ela tenha partido do conceito muito batido de evocar
terra, água, ar e fogo nesses tempos de saturação
esotérica. Flavia Virginia encanta pela sinceridade de sua arte, já
transparente nas primeiras linhas da canção que abre o disco:
" Sabe quando você quer fazer uma balada/ e tem medo do que vai
sair?/(...)Sabe quando você quer fazer uma balada/ e ela se recusa
a te falar de amor?". A Balada funciona como adequado prefácio de
uma artista que alia destreza de arranjadora a fôlego autoral, já
que todas as treze músicas do disco foram assinadas por ela.
O teor de novidade que o Livro-mãe traz é reforçado
pela presença de músicos pouco conhecidos que tocam no disco.
Nos teclados Beto Corrêa, com Max Robert no baixo, Daniel Baeder na
bateria e a trinca de sopros Cláudio Cambé no trompete, Ednaldo
Ignácio nos saxes e Eloy Porto no trombone, os seis formando o
núcleo básico instrumental de Flavia, de forte acento
funk-jazzístico. Há participações especiais de
Djavan, que canta na belíssima composição Crescendo
e atua no violão elétrico de Janela, do às da guitarra
baiana e do bandolim Armandinho, bem como da voz de Daniel Gonzaga em Canto
e Oração da Terra, além de Martinália nos vocais
e percussão em Sangria e Amaralina. Os irmãos de Flavia, Max
(guitarra) e João Viana (bateria) também dão o ar de
sua graça, além de Jair Oliveira e da fera Paula Lima, que
solta o gogó em Vida. Ou seja, a sonoridade do disco é bem
condimentada e vai agradar aos mais exigentes.
Salta aos olhos a personalidade de Flavia como letrista. Do começo
ao fim de seu disco de estréia, ela se esparrama em versos como os
de Praça de Espanha, onde "morro mil mortes em praça de Espanha,/
pálido, enfermo:/Estou aos cuidados da mente tacanha/ desses toureiros/
toureando champanha". Ou na libidinosa Amado de Papel: "Este é meu
amante mais fiel/ fiel, eu a ele./Este é meu amado de papel/ Este
é meu pecado racional/ defluente, amoral/ que eu vou levar comigo
pro céu.". Livro-mãe é a revelação de
uma autora que pode ir longe aos confins da poesia (leia ao lado o trecho
da série Poemas Brasis).
Flavia Virginia já está há treze anos na carreira musical,
tendo cantado nas bandas de Marisa Monte e Elba Ramalho (no Rock in Rio II)
e gravado junto a Gal Costa e Maria Bethânia. Já se deu ao luxo
de dividir o palco também com o baixista de Miles Davis, Mr. Marcus
Miller, com Al Jarreau, cometendo o pequeno lapso de auto-avaliação
ao emprestar o seu nobre talento às vulgaridades do Kid Abelha. Formada
nas fileiras da escola Rio Música, Flavia já trabalhou também
com jingles, ministrando ainda aulas de composição e
expressão vocal. Nascida em Maceió, criada no Rio de Janeiro
e com domicílio atual em São Paulo, Flavia Virginia vem se
dedicando a divulgação do Livro-mãe pelas principais
cidades do país. Passou pelo Ballroom, no Rio, pelo Centro Cultural
São Paulo, onde participou do projeto Chuva de Estrelas, atuando
recentemente também no programa televisivo Domingo com Atitude, da
TVE Rede Brasil. Será que ela é tão boa de palco, quanto
de estúdio?
Ah, sem que se esqueça de um mero detalhe: Flavia Virginia é
filha de Djavan. Com o pai e os irmãos João e Max, ela pretende
lançar um álbum de família que já tem até
nome, Laia. Vai ser bom.
Felipe Tadeu
brasilkult@aol.com
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Felipe
Tadeu, 39,
é jornalista especializado em música brasileira e produtor
do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado
na Alemanha
desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila.
email:
brasilkult@aol.com
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homepage oficial de Flávia
Virgínia |
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Livro-Mãe |
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Poemas
Brasis
Estou agarrada ao mastro,
estou na proa com toda minha lusitânia,
agarro ao mastro porque sou Pedro Álvares,
ou melhor,
Pero Vaz,
ou ainda, mais bem, um Licurgo,
sim, meu nome é Licurgo,
Licurgo Simões.
Licurgo Simões, o franzino.
Não sou importante,
sou mais assim como um bosta,
mal tenho um corpo pra me carregar,
estou aqui nesse navio por piedade de alguém,
talvez pelo contrário.
Licurgo Simões, o franzino,
que tem medo de mar,
pobre,
bobo,
feio,
virgem - ou quase.
A escória de Portugal,
a escorinha.
Venho aqui nesse mar revolto, essa hora revolta,
e avisto, junto com o Capitão,
junto com os marinheiros,
junto com a história,
avisto o Monte Pascoal,
o cume absoluto,
a promessa de terra.
Logo agora, que já me acostumava
às loucuras da água.
Logo agora, que ser um bosta
já não fazia tanta diferença.
Quando já quase não havia diferenças.
Me vem o Monte Pascoal,
e com ele
mais tudo que virá
e que eu desconheço,
mas que certamente me rebosteará.
Ou talvez não!
Talvez algo mágico aconteça ali,
talvez possa fugir e viver longe dessa importância,
e basta de "Licurgo, o franzino".
Quem sabe?
Talvez essa terra que se anuncia
Me espere com...esperança. |
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