Chamo-me Peujota, muitos chamam-me xikorokoro, não sabem é
que me sinto tão novo quanto o menino que comigo viaja, mãos
no volante, salivando, fazendo pim pim. Hoje ninguém se lembra que
já andei em mãos com calos que tinham tanto tempo por dentro,
as do Chofer, como o chamava o administrador.
Eu sou o primeiro carro da vila, por isso que depois de me observar durante
uma semana o velho Malembe explicou a diferença entre caminhar e andar
de carro: quem vai sentado vai mais longe do que quem vai de pé.
Muitos não conheciam a mansidão do Chofer; só o viam
envolto na balalaica da administração, mãos firmes no
volante, olhos no destino, ouvido atento ao Administrador, no banco de
trás: sim, Amsador; não, Amsador; com certeza, Amsador. Caramba,
seu ordinário, eu nunca disse que devias ver se o carro tem
combustível, água, óleo? Já, Amsador. E
então??
Ninguém queria saber de mim; importava-lhes a gasolina, a água,
o óleo
nem o Chofer sabia que meu coração estoirava.
Só quando comecei a reclamar, já saíamos pouco: o velho
cuidava de mim; ah, bom médico? sim, mas aprendeu tudo comigo, eu,
uma dor de cabeça!, como ele repetia. Eu nunca lhe dizia onde me
doía. Levava-me para passear, o que ele chamava experiência.
Por vezes eu queixava-me pelo caminho, recusava prosseguir, seus gestos
aborreciam-se. Até que um dia, ele despedaçou-me todo, motor
para aqui, radiador para lá, compressores, filtros, cardans para
acolá
eu que já nem podia respirar, temia que a
operação falhasse, que o Chofer me montasse ao contrário.
Ele examinou peça por peça; coçou o nariz, mordeu os
lábios e bateu forte com o punho na palma da mão
pois
é, é a bobina de ignição! Mas, só podia
vir de Portugal. Desde então estou parqueado no seu quintal, à
sombra do canhoeiro.
A última vez que ele tentou forçar-me a andar, aconteceu tudo
de repente. A mulher do seu filho Malaquias ia dar à luz naquela
madrugada. O velho foi sacudido da cama e só teve tempo de meter
calções e camisola interior. Hospital? não, eu não
podia chegar... raam raaam raam... mas eu não me mexia, ele insistiu,
berrei, peidei estrondosamente, expeli bolas de fumo e só andei dez
metros, merda! - exaltaram-se os dois, ui ai ui... gemia a Esperança,
já... já está quase! Senti-me molhado no banco de
trás, era a bolsa de água: a criança nasceu dentro de
mim, será que posso dizer que dei a luz? Mas estou orgulhoso.
Veio a independência, a bobina de ignição não
chegou mais, o Administrador voltou para sua terra Portugal, por isso fiquei
definitivamente para o Chofer, doentio, que me passou para as mãos
do filho.
Mal Malaquias pegou na maleta de mecânico e o hovororo do pai, sujava-se
todo com óleos, metia a chave de ignição, feria os
tímpanos da vila com persistentes raaaam
raaaaaaaaam que nem
deixavam o menino brincar comigo. Quem vai sentado vai mais longe do que
quem vai de pé, diziam ainda as pessoas e apontavam o dedo ao Malaquias:
mas aquele ali não vai longe! É porque ele vivia por baixo
de mim. Eu pus-me a zombar dele, ele metia a chave de ignição
tchuim him him him him - ria-me eu e calava-me, merda!, reagia ele, desistia,
recomeçava, até que partiu a chave.
Surgia então o menino, sorria para mim, eu abria-lhe a porta, ele
acariciava-me, conversava comigo, eu, que até já estava desesperado
e sem futuro, depois de tantos anos parado. Vamos passear, convidou-me. Eu
nem quis acreditar, assim que senti a sua mãozinha sobre o volante,
excitei-me, senti que estávamos um para o outro. Primeiro demos voltas
pela vila, lembravam-me o Administrador, o Chofer, quando fazíamos
os vaivéns vila-administração-vila, vila-Lourenço
Marques-vila, os meninos que nos seguiam gritando peujota, as mamanas com
lenha ou lata na cabeça, acenando...
E Dona Esperança, Xandinhooo! Já íamos tão longe
que ele não ouvia, então vinha puxá-lo, Xandinho, vamos
embora
vamos comer, já! Eu ficava triste e trocava o olhar com
o menino. Deixa-me chegar aqui à África do Sul, volto já,
mamã!! - choramingava ele, queria ficar comigo, e mais nada. Eu entendia
a dona Esperança, ele tinha mesmo que abastecer, senão nem
a Boane chegávamos. Dona Esperança nostálgica lembrava-se
que, se o Malaquias tivesse reparado Peujota, ele é que estava agora
a fazer transporte e trazia dinheiro para o pão. Malaquias já
me ia vendendo aos pedaços. Primeiro foi o radiador para o seu compadre
Miguel, depois o motor para o sô Zunguza e mais tarde, o carburador,
o tubo de escape... os bancos serviam para a sala de visitas da casa, as
portas eram telhado da capoeira, será que ainda existo?
Depois de abastecer, mathapa com xima, óleos e água, na
estação de serviço Dona Esperança, eis que voltava
o menino! e aí é que era a grande viagem!!! Hei hei... espera,
espera um pouco!... - eram os amigos dele que mandavam parar pelo caminho,
para a boleia. Os dedos dele accionam a ignição, pim pim...
vuuuuummmm, tá táaaaaaaaaa, deslizo eu, partindo da boca dele.
Atravessámos a vila, deixámos matagais e o além para
trás, percorremos cidades e cidades
e um dia chegámos
ao fim do mundo, fartámo-nos, agora estamos a caminho da lua, depois,
sol!... |