Desesperada e bêbada, Violeta, a protagonista deste segundo romance
de Dulce Maria Cardoso, provoca um acidente de automóvel e morre.
Na sua memória moribunda passa, de forma multifacetada, a vida que
Violeta levou e que a levou, até ai
As feridas pessoais da protagonista com o nome tão "kitsch" (nome
de flor, mas não Rosa), as suas grandes desilusões de uma vida
altamente frustrada intercalam-se, neste romance, com os horrores de um
quotidiano cujos grotescos brutais às vezes nem aparecem, de tanto
habituais que eles nos são: Violeta vende cosmética a donas
de casa, a sua filha vende faz passar pela caixa de registo
tudo o que as pessoas compram no hipermercado em que trabalha. O ambiente
é este. A vida.
Mas há também os sonhos, que também têm a ver
com as grandes linhas históricas, traçadas a partir do 25 de
Abril, mas também com amor e paixão, sexualidade sonhos
da adolescência frustrados em relações fracassadas. Tal
como os sonhos de uma outra sociedade se esbarraram nas muralhas de um
establishment que permaneceu, nos seus mofados valores, e de cuja herança
pessoal em forma de uma casa antiga, Violeta finalmente se conseguira livrar
um dia antes de sua própria morte
Para além disto, desta estória traumatizante, o livro lê-se
como um grande poema, tecendo as memórias, os pensamentos, os sentimentos
de Violeta, como se ela tivesse duas vozes a narrar uma só
estória, que por sua vez se compõe por dezenas de cenas, vozes,
flashs e memórias: A protagonista a sonhar a sua própria morte,
a sua própria vida, a realidade, o próprio sonho.
Há poucos livros, em que a inovação estética
se combina tão perfeitamente com uma lucidez esplêndida na narrativa
e uma análise aguda e dolorosa das mentiras com que dia a dia fingimos
sobreviver.
Dos livros que li em 2005, com grande certeza o melhor e o que mais me
impressionou! |