Viemos agora mesmo de ver O Escritor em tertúlia na livraria: muita
gente, muita gente, eu de sobretudo escuro como um intelectual de esquerda;
o meu amor de maço de tabaco e isqueiro na mão.
E como ele era grande e velho e calvo, O Escritor: os braços grossos
e peludos de puxar metáforas teimosas; fez malabarismos com os
músculos do rosto, com três laranjas, depois três laranjas
e um limão, dobrou esferográficas à custa de pensar
nelas e mostrou-nos como se roda uma cadeira presa pelos dentes. No fim
afastámo-nos todos deixando um corredor com uma solitária
bancazinha ao fundo: ele tomou balanço e impulsionou-se daí
contra o vidro da montra, estilhaçando-a, caindo em pé do lado
de lá da rua. Aplaudimos muito e o meu amor verteu uma
lágrima grossa que me deu, segurando-a entre os dedos: «uma
pérola, amor, uma pérola», disse-me, enquanto O Escritor
regressava à livraria esfregando a cara: «acho que me entrou
um bocadinho de vidro para o olho, ora vejam lá»; e todos nós,
comprimidos uns contra os outros, perscrutando-lhe atentamente as mais
íntimas variações da córnea e do cristalino.
© António Gregório 2006 |