Senhores e senhoras, temos a grata satisfação de falar de
Miró. Sobre ele é quase inútil procurar
informações no Google, porque entre os 35.700.000 resultados
no máximo 4 se referem ao particular Miró que lhes apresentamos
agora. De nome de batismo João Flávio Cordeiro da Silva, o
poeta Miró nasceu no Recife há 46 anos. Mas nada nesse nome
artístico vem do outro mais conhecido, um outro grande, um certo criador
Joan, da convivência de João Cabral de Melo Neto. Não.
Esse Miró, esse nome nobre... - e já sinto no ventre a cutilada
do poeta - «todo nome é nobre» - essa denominação
vem de outras plagas nobres. Vem de lá dos subúrbios do Recife.
João Flávio foi transformado em Miró pelos amigos, porque
lembrava ao jogar o bom Mirobaldo, um craque da pelota do Santa Cruz Futebol
Clube. No tempo em que o maior talento de João era o futebol, os seus
amigos o apelidaram de Miró, forma reduzida de Mirobaldo, que se pronuncia
com a vogal aberta no hablar nordestino. Depois, na fase em que assumiu o
jogo mais raro e difícil da poesia, achou por bem continuar assim,
Miró, para melhor sorrir no íntimo com os dentes claros, diante
de quem o confunde com o pintor catalão.
Em um mundo globalizado conforme a ótica WASP, Miró é
um acúmulo de surpresas. Pois imaginem as senhoras ladies e os senhores
gentlemen que ele é um poeta que jamais entrou na universidade. Pelo
menos, para assistir a lições como estudante universitário,
nunca. E, continuem a imaginar, isto não lhe faz nenhuma falta,
devíamos mesmo dizer, para a sua poesia é um bem, porque lê
e se educa em obediência a uma ordem que não está no
currículo de uma tradição estéril. A quem não
o conhece, a sua pessoa, física, guarda uma grata e grada graça:
Miró tem a pele escura, e, ladies and gentlemen, não finjam
por favor naturalidade. Mesmo em um povo mestiço, Miró é
uma exceção: as pessoas sensíveis, até mesmo
no Brasil, têm uma estranha gradação na cor da pele da
sua sensibilidade. Quanto mais claros, mais poetas. Quanto mais escuros,
mais trabalhadores braçais, ou, se forem artistas, mais jogadores
de futebol. Daí que faz sentido o poeta Miró vir de Mirobaldo,
o craque do Santa Cruz Futebol Clube. Pero a melhor surpresa de Miró
vem da sua poesia. Acompanhem-nos, por favor, assim como o acompanhamos esta
semana em um auditório.
Todos nós aprendemos, ou fomos como bons estúpidos para isto
educados, que o poema realiza a poesia nas suas linhas. Ou, se quiserem,
o poema não precisa da pessoa do poeta - a certeza única e
exclusiva do seu valor está no que escreve. Certo? Senhores e senhoras,
ladies and gentlemen, e Jesús na Espanha nos ajude para o senõres
y señoras: - Errado. Quem não viu Miró declamar os seus
poemas não sabe o quanto este conceito, preconceito, esta burrice
ancestral está errada. Aquela justa observação feita
por Manuel Bandeira à poesia de Ascenso Ferreira, no trecho
«Não me lembro se antes de me avistar pela primeira vez com Ascenso
Ferreira eu já tinha conhecimento dos seus versos. Como quer que fosse,
eles foram para mim, na voz do poeta, uma revelação. Pois quem
não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar,
arrotar os seus poemas, não pode fazer idéia das virtualidades
verbais neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o
autor»
aplica-se também à poesia de Miró. Com alguns câmbios.
Mirem. Onde Ascenso Ferreira realizava no recitar um uso extraordinário
da voz, da modulação ao acento, do corte da sílaba à
ênfase, como dizê-lo?, uma utilização da voz como
um ator de rádio, Miró usa a imagem, física, melhor
dizendo, ele usa o próprio corpo, ele faz evoluções
pelo auditório, como um cantor de rap, quase diríamos. Mas
sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas, esbugalha
os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a
assistência. Como um Tio Sam invertido, que em vez de conclamar um
alistamento, nos enfiasse a realidade cara a dentro:
- Tomem poesia, seus filhos da puta!
A platéia, divertida, sorri, gargalha, diante de versos que não
chegam a ser bem cômicos. Como aqui:
Tinha lido num livro de auto-ajuda, de um
desses psicólogos
De araque, que aparecem nesses
programas matinais que dão
Receitas pra tudo, inclusive de bolo,
Que na hora que a vida vira uma merda
O melhor é sair da fossa
Ou nestes versos
Acho que foi a primeira vez que conheci a dor
Um domingo de 1971
Naquele tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha mãe fazia um macarrão com carne de
lata e Q-suco
Ficávamos brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra provar que éramos felizes....
Norma era tão linda com seus cabelos
negros,
Que me deu um branco aos 11 anos
Quando me pediu um biscoito maizena e um
gole de fratele vita ....
Domingo era o dia mais feliz
Antes de Norma beijar um outro na boca
A platéia, o distinto público, vai ao delírio. De rir,
de gargalhar. Miró fala de um mundo abaixo do nível do
auditório. O primeiro elemento cômico é que a miséria
é cômica. A maior comicidade é a desgraça que
não sentimos na própria pele. A dor que não é
a nossa, a dor pela qual não temos empatia, ah, ladies and gentlemen,
como é cômica. Não iremos consultar nada agora, mas em
algum lugar deve estar observado que o riso é manifestação
pela desgraça alheia. O riso atesta a nossa superioridade ante o
ridículo que não nos alcança. Quem jamais bebeu "sucos"
em pacotinhos de pó, de "morango", de "uva", com bastante
açúcar e gelo, como bebem os que não podem comprar frutas
em um país tropical, acha isto irresistivelmente cômico.Quem
jamais saboreou carne enlatada no país de maior rebanho bovino do
mundo, quem jamais pôde sentir o sabor, o gosto e a maravilha da carne
Swift, da carne da Wilson, com macarrão rubro de colorau aos domingos,
porra, que piada genial é esse macarrão se transformar no dia
da felicidade. E aquela prova de amor, da cumplicidade que tem o amor, quando
a musa pede refrigerante, guaraná da frattelli vita, com o biscoito
miserável de maisena. Caralho, esse cara é do peru! E Norma
beija um outro, mirem o detalhe, na boca! na boca! Menos, por favor, você
é demais, cara!
O poeta gira em torno da assistência. A sua arma, a sua graça
e cômico é a verdade. Aquelas coisas mínimas,
constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo
louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma
sensibilidade que observa o inobservável.
Já perceberam como tem pontas de
cigarro em pontos de ônibus?
Tem uma tese de um amigo que diz:
Que as empresas de ônibus são
responsáveis por 5% dos cânceres de
pulmão.
Curioso perguntei, como assim?
É que os ônibus demoram.
Ou mesmo, vejam que engraçado:
O amor passou na tarde
Com a mão direita sobre o ombro de um
filho com síndrome de Down ...
Aldeota, um jumento espera inquieto a
volta do seu dono que foi tomar uma
sopinha com pão, com o dinheiro das
migalhas que catou.
E eu fiquei tão emocionado,
Que não consegui escrever mais nada.
A recepção da platéia a essas coisas é vê-las
apenas como o lado sujo, trash, de uma estética suja e trash, de um
maluco que escreve e não tem nenhuma vergonha de escrever sobre essa
miséria como um bárbaro sem educação. (Nós,
os cultos. Nós, os que, se algum dia fomos dessa desgraça,
bem que a superamos. Nós, os de outro mundo. Nós, os limpos,
cleans e educados.) O poeta gira, e deixa a aparência, como um bom
gira, de fazer também uma rotação. Então ele
declama, recita, pula, contorce-se, cospe e pragueja uns versos que a expectativa
do distinto e cultíssimo público não percebe. O clima
em torno da sua performance não permite a degustação,
a permanência que tem a beleza, a que sempre por necessidade voltamos.
Então ele fala, enquanto o público espera dar mais uma risada,
então ele faz uma prece, um poema que somente hoje pela manhã
pudemos sentir, ao ler e mastigar e ruminar como as cabras mastigam e ruminam
uma erva muito amarga. Esse poema não precisa do poeta. Da sua pessoa.
Basta uma sensibilidade.
Deus, Tu que agora carregas um homem,
Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns
sacos de cimento
De cada lado um sol insuportável ...
Deus,
Choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas
E fazer justiça com as próprias mãos.
Esses versos preencheram toda esta manhã de hoje. Dormiram e não
saíram do peito todo este dia. Talvez porque nos tenham recordado
de outro João, de Os corações futuristas, que pleno
de álcool em 1973 também se sentiu impotente e louco de
justiça.
Deus, choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas
Miró, poeta marginal? Pobre e miserável quem o toma assim.
© Urariano Mota 2006 |