Caleidoscópio da memória: um romance pernambucano
O mundo simbólico, como é cheio de surpresas, provoca
transformações como o caleidoscópio daqueles levados
da Holanda para Olinda e que me encantaram na infância [...] Giramos
o cilindro e provocamos una nova combinação dos mesmo elementos.
Uma nova estética, mas a essência é a mesma. Algumas
vezes, no entanto, de tanto girar, algo se transforma
(1). Estamos em 1698. Desde Amesterdão, Antonius
Denebom, herói do romance, reconsidera o trajeto da própria
vida. Filho de um holandês e de uma pernambucana, nasceu em 1638, durante
as ocupações holandesas, e cresceu sob o domínio tolerante
de João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679). Depois da derrota
dos holandeses, Antonius decidiu viajar para Europa à procura de suas
raízes em Lisboa e Amesterdão, no meio de uma Europa desgarrada
pelas lutas religiosas e uma crise do pensamento europeu.
Doce inferno: os holandeses no Brasil
Não busco culpados, vítimas, derrotados ou vencedores.
Quero compartilhar a história da minha espera, a espera para cumprir
minha parte na história. Essa espera meditativa que é a tomada
de consciência da teia dos acontecimentos. Foi o mais próximo
que consegui chegar da alma nessa viagem
(2), escreve Antonius Deneboom no início
do romance para prosseguir: Esta história começa, na
verdade, em 1629, quando meu pai, Peter Deneboom, se alistou na Companhia
das Índias Ocidentais como médico e participou da invasão
holandesa de Pernambuco, no Brasil, em fevereiro de 1630. Ele estava naquela
época com trinta anos de idade [...] dado a reflexões
teológicas e extremamente dedicado à profissão. Gostava
de escrever e deixou vários cadernos com registros de suas
inquietações, além de um relato de sua viagem para o
Brasil.
Após a descoberta do Brasil (1500), a Coroa portuguesa estava confrontada
com um grave problema: como povoar uma terra dez vezes superior à
mãe-pátria? El-Rei d. João III (1502-1557) introduziu
o sistema das capitanias hereditárias e, no caso de Pernambuco, o
dono da terra virou a ser D. Duarte Coelho (?-1554) que conseguiu transformar
o Nordeste brasileiro numa das colônias mais ricas da Coroa e exportava
toneladas de açúcar (3). D. Duarte
era membro da Ordem de Cristo, a rama portuguesa dos templários,
e aproveitou a sua posição para atrair colonizadores portugueses,
italianos e galegos. Tanta prosperidade levantou suspeitas e, depois de um
troco de cartas furibundas, D. Duarte teve que voltar a Lisboa onde morreu
em circunstâncias misteriosas (4).
A pior ameaça para o império colonial português no Novo
Mundo foi a invasão holandesa de Pernambuco (1630-1654). Naquela altura,
as Províncias Unidas dispunham de 16'000 navios, muitos mais do que
qualquer outra nação européia. A Companhia das Índias
Ocidentais, fundada em 1621, tinha como objetivo declarado a conquista do
Brasil. Os holandeses conheciam muito bem as terras do Nordeste, pois o
açúcar pernambucano passou a ser refinado em Amesterdão.
No momento da conquista holandesa Pernambuco dispunha de 120 engenhos de
açúcar e a aristocracia pernambucana vivia num luxo inaudito,
apesar dos freqüentes atos de pirataria no Atlântico sul. Quando
os navios holandeses surgiram no horizonte, a capital Olinda foi abandonada
depois de breve luta e o governador de Pernambuco, Matias de Albuquerque,
conseguiu resistir aos batavos até 1635, quando éstes ocuparam
a Várzea e os engenhos de açúcar. A guerra luso-holandesa
levou ao colapso da economia pernambucana: engenhos queimados, escravos fugidos,
casas-grandes em ruínas. A situação exigiu a presença
de um administrador forte, à altura da tarefa. Escolheram um
príncipe alemão, João Maurício de
Nassau-Siegen.
Nassau e o sonho da Nova Atlântida
Nassau estabeleceu uma administração diferente de tudo
que tivemos antes. Nos sete anos que ficou, desenvolveu as artes, deu ao
Recife qualidades de cidade importante, construiu pontes e estradas,
lembra Antonius Deneboom no romance (5). Ele
foi um bom político e um homem sensível como convém
ao mecenas das artes que foi. É exatamente essa característica
que me faz pensar que foi ingênuo na sua avaliação das
forças, ocultas e manifestas, envolvidas na
situação.
Desde o primeiro momento, a Companhia das Índias Ocidentais procurava
respeitar certos privilégios e liberdades em sua nova colônia,
afinal dependia dos barões do açúcar portugueses para
a fazer funcionar (6). João Maurício,
o futuro governador pernambucano, não tinha experiência com
os trópicos. No entanto era filho de uma importante família
protestante e tinha cursado estudos em Herborn, Genebra e Basiléia.
Ao partir para Pernambuco, alimentava visões grandiosas: queria
transformar a antiga colônia portuguesa num baluarte da
civilização. Para alcançar tão ambiciosos objetivos
levou consigo um grupo de ilustres cientistas e artistas, o médico
Willem Piso (1611-1678), o astrônomo alemão Georg Markgraf
(1610-1644) e os pintores holandeses Albert Eckhout (1637-1664) e Frans Post
(1612-1680) que deixaram à posteridade um vivo retrato do Nordeste
brasileiro (7). A tolerância religiosa perante
a maioria católica e a minoria judia durante a era Nassau contrastava
violentamente com a Europa do século XVII onde os conflitos religiosos
degeneraram em lutas sangrentas. No entanto, os projetos de Nassau estavam
destinados a frustrar-se diante da tenaz resistência dos barões
do açúcar que farejavam na dominação holandesa
uma ameaça para os seus privilégios. Ao mesmo tempo, Recife
virou uma das cidades mais caras do mundo. Os holandeses traziam tudo da
Europa: carnes, presuntos, salmão, cerveja, queijo, tijolos e casas
inteiras. Para a Companhia das Índias Ocidentais Pernambuco era
sinônimo de açúcar e as despesas do seu administrador
provocavam uma irritação constante em Amesterdão. O
maior projeto de Nassau era a fundação de uma nova capital
na ilha de Antônio Vaz, chamada Maurícia. Apesar de uma aguda
falta de materiais de construção, o conde Nassau não
poupou esforços para transformar a sua Maurícia na maior
metrópole do Novo Mundo com diques, pontes e estradas pavimentadas
(8).
A realidade multifacetada do Pernambuco holandês reflete-se no romance
de Frederico Lucena de Menezes. Muito embora a Nova Holanda fosse
um projeto utópico com escassas possibilidades de realização,
Nassau não era o único que acreditava no futuro da colônia
holandesa no Novo Mundo: Infelizmente, a tolerância religiosa
que Nassau mostrou com sabedoria não veio com o fidalgo Barreto de
Menezes. Cultos não católicos foram proibidos, igrejas foram
modificadas, cristãos reformados foram exumados de suas sepulturas
em templos católicos e a intolerância se instalou
(9). Depois do colapso da Nova Atlântida,
o narrador viaja para a Europa, à procura de uma nova utopia que deveria
não somente trazer a tolerância religiosa, mas também
a independência política para o Brasil.
À procura de Christian Rosencreutz
Johann Valentin Andrea era teatrólogo, pastor e metido em
organizações secretas [...]. Eu estajava pela metade da segunda
caixa quando um rolo de papéis amarelos, atados por uma fita de seda
que um dia fora azul, chamou-me a atenção. Deslizei o anel
de seda para uma extremidade do rolo, já que não conseguia
desatar o nó. [...] O coração começou a bater
forte e eu tinha a sensação que um raio ia me atingir [...]
lá estava a assinatura de Duarte Coelho e o ano de 1554!
(10)
Na sua viagem da Holanda para o Brasil o médico Peter Deneboom depara
com um estranho inglês chamado Thomas Kemp. Depois de uma reticência
inicial ele se abre ao médico holandês e fala de sua família
católica e dos laços que a uniam a Duarte Coelho. Pouco antes
de morrer, o primeiro capitão-geral de Pernambuco teria deixado um
testamento que foi levado para a Inglaterra onde circulava de mão
em mão até desaparecer nos tempos de Cromwell
(11). Este testamento é o leitmotiv no
romance de Frederico Lucena de Menezes e equivale à procura da
própria identidade e da história perdida de Pernambuco. Assim,
Antonius Deneboom percorre a Europa inteira à procura de este documento,
passando por Lisboa, Espanha, França e Alemanha. Nos papéis
do pastor luterano Johann Valentin Andreae (1586-1654), um dos fundadores
dos rosa-cruzes, encontra por fim o documento, antes de perdê-lo
definitivamente.
A lenda dos rosa-cruzes nasceu nos primeiros anos do século XVII,
numa época de incertezas entre a reforma protestante e a Guerra dos
Trinta Anos. Em 1616 o teólogo alemão Johann Valentin Andreae
publicou em Estrasburgo o Casamento Químico
(12) , uma narração alegórica
em sete capítulos. O tema é a fundição
simbólica entre dois elementos num castelo grandioso
(13). O Casamento Químico é o
símbolo de uma época cheia de conflitos, caracterizada pela
descoberta da América, o desvendamento dos secretos da anatomia e
a destruição da unidade religiosa pela reforma protestante
(14). Num período tão conflitivo
nem admira que Peter Deneboom, o protagonista do romance, aguarde numa espera
apocalíptica o fim de uma era: Pensei tanto nessa questão
da espera que estou quase me convencendo de que esperar é sinônimo
de viver. Não é uma espera no sentido comum; aquela à
qual me refiro não é [...] uma espera calculada; é uma
espera para além da condição humana, uma
meditação (15). Seu filho Antonius
Deneboom não viveu a experiência utópica do conde Nassau,
rodeado por o seu grupo de sábios ilustres. A queda do preço
do açúcar em Amesterdão (1641-44) destruiu as
esperanças de uma colônia-modelo, cheia de paz e prosperidade
e só deixou amargas frustrações e uma lancinante
nostalgia.
Em 1627 saiu a Nova Atlântida, a alegoria póstuma de
Francis Bacon (1561-1626). Nesta obra, o filósofo inglês descreve
a descoberta de um mundo novo, povoado por uma comunidade ideal de cristãos
esclarecidos. Os habitantes vivem sob o governo de um colégio de
sábios activos em todos os domínios do saber
que convivem na casa da ciência, chamada Salomons House.
Se esta utopia tiver algum apoio na realidade, teremos de procurá-lo
na Nova Holanda do conde Nassau (16) : Salomons
House faz pensar castelo Vrijburg do conde Nassau onde o governador
pernambucano instalava os seus 46 sábios. No romance, esta utopa faz
parte da herança de Antionius Deneboom. Pela vida fora ele anda procurando
as razões de seu malogro e um novo sentido para a existência
humana.
Albert von Brunn (Zurique) |