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João Justiniano da Fonseca
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Carnaval Quarta
Feira de Cinzas
Salvador. Farol da Barra. Resto de folia carnavalesca. O tempo pegando fogo
na madrugada de Quarta Feira de Cinzas. Gente louca na rua, no trio
elétrico, nos camarotes. Na rua sobretudo. E a música rolando,
rolando a latinha de cerveja em milhares de mãos. Pulo, canto, gritos,
desespero.
O Farol lá em cima olhando, entre curioso e pasmado, gozando a folia.
Madrugada próxima do raiar da aurora. Um casal de foliões.
Depois de pular, cantar, gritar e beber a noite inteira, desce à praia.
Lá em cima o farol olhando. Lançam-se ao mar, mergulham, erguem-se,
mergulham... O farol olhando.
Em pouco mais estão desvestidos completamente. E transam sob as
águas do mar. Transam mais... O moço sai correndo para o alto,
chega à banca mais próxima, toma duas cervejas e volta correndo
para a amada. Pelado, pelado. Não pagou. Pelado, correndo de volta
à praia. O barraqueiro chiou. Veio o policial e informou-se da
ocorrência. Viu, à distância, os dois, deitados na areia
chupando a cervejinha da lata. Foi lá. O moço o avistou e correu.
Ficou só a moça deitada como estava, pelada como estava, chupando
a cerveja como estava. Nem se mexeu. O praça olhou-a, aquele material
todo na forma como Deus o botou no mundo, quis falar, quis ir... Vacilou.
Correu atrás do moço, alcançou-o e ia levando em cana.
A moça gritou:
Leva ele não qui tá pelado e fica feio. Bota eu em cana,
bota eu em cana, que tou vestidinha da brisa da madrugada...
O praça vacilou mais uma vez e o moço escapou. Aí voltou-se
ele para a moça e gritou:
Então é você mesmo, tá presa, pro alto,
pro alto... Ei! Disse que tá vestida... Tá nada, tá
nuínha em pelo... Mais essa, meu Deus, que qui faço agora?
A moça tá pelada, como é Qui faço?
Decidiu-se, tirou a túnica e cobriu-a, tocou para o alto. O povão
da folia, ao ver o praça meio nu e a moça coberta com a sua
túnica, gritou a mil bocas:
Olha lá, olha lá, o soldado transando...
Veio o capitão e encanou os dois. A jovem jogou fora o agasalho, colou
o corpo nu ao busto do soldado e este acolheu o desafio.
Capitão, ela berrou, Carnaval é a alegria do povo! Deixa
a gente!
O capitão fez um ar de riso, fechou os olhos e foi adiante. Lá
em cima o farol gozando a folia. O sol já estava do lado de fora do
céu e os sinos marcavam o chamamento para a Missa de Cinzas:
Lembra-te homem, que és pó e ao pó
reverterás..
© João Justiniano da Fonseca
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| João Justiniano da Fonseca |
João Justiniano da Fonseca é poeta e ficcionista, com
incursões na historiografia e na biografia. Nasceu em Rodelas, Estado
da Bahia, em 1920.
Servidor Público, João Justiniano da Fonseca tem um longo percurso
de trabalho, iniciado 1940. Exerceu os mais diversos cargos na
administração pública, foi prefeito e vereador nos anos
60 e 70. Só em 1990 aposentou-se definitivamente da vida
profissional.
Em 1960 publica o seu primeiro livro de poesias, dispondo hoje de uma vasta
obra de todos os gêneros, publicada em papel como também em
forma de livro eletrônico e disponível no site
www.joaojustiniano.net.
Obra Literária:
Safiras e Outros Poemas (poesia lírica, 1960),
Sonhos de João (poesia lírica, 1974),
Brados do Sertão (poesia épico-social),
Sonetos de Amor e Passatempo, Rio Grande do Sul (poesia
vária).
Luiz Rogério de Sousa - Educador Emérito (resumo
biográfico e coroa de sonetilhos),
Cacimba Seca (romance),
Terra Inundada (romance),
Grilagem (romance),
Aquele Homem (romance),
Rodelas - Curraleiros, Índios e Missionários
(história da colonização na região das
corredeiras do Rio São Francisco),
Sertão, Luz e Luzerna (contos),
Cantigas de Fuga ao Tédio (poesia lírica),
Memórias de Pedro Malaca (romance).
É editor da Revista da POEBRAS SALVADOR, no 4o número em 2002.
http://www.joaojustiniano.net/

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