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Beatriz
Azevedo A alegria é a prova dos nove
A
cantora, poeta e compositora Beatriz Azevedo lançou há pouco
o terceiro disco de sua carreira, um álbum que chegou às boas
casas do ramo via Biscoito Fino. Alegria é um trabalho
fascinante por tudo que traz em termos de inventividade, graça,
delicadeza, vigor e coragem. Poesia da flor à pele.
A mídia tem falado pouco dele, bem menos do que deveria. Mas vai ver
esse é outro talento de Beatriz, além de cantar tão
segura e de compor tantas surpresas. Beatriz não se expõe muito,
preferindo chegar aos poucos àqueles que interessam. Você, por
exemplo.
Alegria é o teu melhor trabalho lançado até
agora. É também o primeiro em que você banca
a produção musical sozinha. Isso fez a diferença nesse
disco?
Beatriz
Azevedo Alegria é o meu terceiro CD. A
princípio eu planejava ter um produtor musical, como tive nos 2 primeiros
discos (N.dR: Bum Bum do Poeta, de 2000 e Mapa-Mundi
Samba and Poetry). Mas os produtores musicais com quem eu queria trabalhar
estavam com a agenda tomada. Então eu não tive escolha, tive
que assumir a produção musical de uma hora para outra, e acabei
adorando! Também eu contava com a presença de músicos
brilhantes ao meu lado, a direção musical do Cristóvão
Bastos, o talento e a intimidade com Bocato, que toca comigo há muitos
anos. Na verdade eu já sabia muito bem o que queria com o CD. Mas
como nunca tinha assinado a produção musical, o que eu não
sabia era se eu daria conta sozinha. A diferença é que tive
total liberdade nas decisões finais e tive que me colocar ainda mais
no trabalho, não só na composição e
interpretação musical, mas na criação dos arranjos,
na decisão dos instrumentos, de que músicos convidar, na sonoridade
do CD, nos timbres, na mixagem, na arte da capa, enfim, em todo o processo
de criação. Para o bem e para o mal, Alegria é
a minha cara! Hoje acho isso muito importante, muito necessário, na
música, na arte em geral. Muitos discos que a gente escuta por aí
ficam devendo uma integridade, uma personalidade, uma entrega, um posicionamento
total do artista. Quando a presença do produtor é muito marcante
no trabalho, parece que isso "esconde" a personalidade (ou a falta de) do
próprio artista. No caso de cantoras, principalmente, parece que
você não está tocando a verdadeira pessoa, mas uma pele
carregada de maquiagem, truques de estúdio, efeitos, peitos de silicone,
vozes de botox.
O arranjo de Speak Low é maravilhoso, com aquela surpresa
que é o berimbau, e a batida de maracatu. Com foi trabalhar com
Cristóvão Bastos como diretor musical?
Beatriz Azevedo Quanto ao Speak Low, fico muito
contente que você curtiu, exatamente porque este foi um arranjo que
nasceu na minha cabeça e tive que "brigar" um pouco com os músicos
para convencê-los de que ficaria legal. Desde o princípio quis
fazer Speak Low numa levada de maracatu. Na faculdade de artes
cênicas eu tive aulas com a Raquel Trindade, uma mãe de santo
que jogou os búzios para mim, filha do Solano Trindade, do Recife,
e ela dava aulas de danças populares do Brasil. O maracatu me encantou,
não é só um ritmo, é um ritual. Daí quis
colocar esta atmosfera densa em Speak Low. É um standard,
todo mundo já gravou, de Billie Holiday à Marisa Monte, e não
teria o menor sentido eu fazer mais uma regravação. Só
se acrescentasse realmente, fosse uma nova leitura da música do Kurt
Weill. Daí fui convidada para tocar em Berlim e achei que era o momento
certo de fazer esta devoração brasileira na terra dele. Exatamente
porque Berlim, a Alemanha, é muito marcante para mim, eu me alimento
desta cultura, de Nietzsche a Brecht, de Dietrich a Fassbinder, de Kurt Weill
a Pole, de Peter Stein à Pina Bausch, à Sascha Waltz. Bom,
mas musicalmente, Speak Low é em 2/4 e o maracatu é um dos
poucos ritmos brasileiros que é em 4/4. Depois é barulhento,
tem os tambores, as alfaias, e a letra diz para falar baixinho... Na cabeça
da maioria dos músicos, Speak Low é uma balada,
um jazz suave, eles já sabem tocar de cor, e não teria nada
a ver a minha vontade de ter maracatu nesta canção. Mas aos
poucos fui convencendo a banda e tocamos várias vezes em shows, até
ficar orgânico para todo mundo. Nas gravações, levei
a base já gravada para o percussionista Gui Kastrup, e disse: já
tem bateria, caixa de maracatu, mas está faltando algo. Coloca umas
alfaias bem graves. E não sei porque ouvi um berimbau (que normalmente
nem entra em maracatu, tem mais a ver com capoeira, com Bahia do que com
Recife) e encomendei: não deixa de gravar um berimbau!
Quando fui ao Rio me encontrar com o Cristóvão para dialogar
sobre os arranjos do CD, mostrei várias gravações dos
shows, o repertório todo, e a gente conversou sobre o que poderíamos
fazer com cada música, o que precisaria ser acrescentado ou retirado,
que instrumentos usaríamos, que arranjos (envolvendo cordas ou metais)
o Cristóvão precisaria escrever partitura, que harmonias ele
achava que precisava refazer, etc. No caso de Speak Low ele falou:
"está lindo assim como você já faz nos shows, não
precisa tirar nem colocar nada, a onda está ótima".
Isto ilustra muito bem quem é o Cristóvão. Ele sabe
tudo de música, tem tanta experiência que é tranquilo
e não precisa ostentar nada. Coisa de sábio. Ele tanto está
ligado às tradições do samba, do choro do Rio de Janeiro,
como foi um dos fundadores da Banda Black Rio, de todo aquele suíngue.
Por tudo isso, o que eu sinto é que quando ele vem tocar comigo, com
gerações que estão surgindo agora, ele não fica
querendo dar uma "receita" de como se faz ou deveria fazer música
brasileira. Ele vem aberto, e está mais interessado na diferença
que eu trago. Fui percebendo isso ao longo dos shows, e aí eu virei
fã mesmo dele! No primeiro show no Sesc Pompéia, anos atrás,
eu coloquei um poema maluco meio rap, longuíssimo, violento, barulhento,
no repertório do show. Era o único número em que o
Cristóvão não participava. Aquilo causou um estranhamento
no meio das canções, de músicas mais "brasileiras" e
delicadas que a banda tocou. O Cristóvão saiu do palco e ficou
assistindo de fora. Eu cheguei a imaginar que na próxima vez que eu
o convidasse para tocar comigo ele daria uma desculpa, não voltaria
mais para trabalhar com aquela maluca. Afinal ele é o diretor musical
da Nana Caymmi, do Paulinho da Viola, da Gal Costa, parceiro do Chico Buarque.
Vamos combinar que ele realmente não "precisa" de mim para nada, né?
Mas foi ao contrário! Quando o show acabou, ele me disse que o que
ele mais havia gostado era justamente o poema.
Bocato está se tornando uma marca da tua sonoridade. Fale um pouco
desse ilustre integrante da banda Isca de Polícia.
Beatriz Azevedo Bocato é um músico genial
também. Bem livre, malucão. Tem uma história muito ligada
à música mais ousada de São Paulo, à chamada
"vanguarda paulistana", criou a Banda Metalurgia. Eu não era nem nascida
e ele já arrebentava por aí. Tocou com Elis Regina quando ele
era ainda adolescente. Eu adoro o som dele, e acho que combina muito bem
com a música que eu faço, o trombone do Bocato completa uma
atmosfera meio cabaret que me atrai, ecoa também os metais de Goran
Bregovic, aquelas cenas geniais do filme Underground do Kusturica,
e as bandas das cidades do interior do Brasil, meio fanfarra, os metais graves
tipo tuba. Tudo isso cabe como uma luva na música que eu componho,
e o Bocato, com um trombone só, coloca um vasto mundo dentro do meu
CD.
Um dos fatores que te distingüem dentre tantos novos valores da
música brasileira é a literatura. Você encontra
soluções inesperadas inclusive para poemas alheios, que estavam
por aí, meio que esquecidos no tempo. Ainda que a palavra te seja
tão íntima, tão própria, tem-se a impressão
de que se fosse para a Beatriz fazer só literatura, ela não
faria. Você se concebe sem o lado compositora?
Beatriz Azevedo Olha, eu tenho este vício de encontrar
contemporaneidade em textos antigos, eu sempre leio um texto, por mais antigo
que seja, com a minha voz pessoal, atual, viva, leio em voz alta sem fazer
salamaleques ao "tu e vós" que porventura o poema tenha, ou rimas
rígidas que revelam a época em que foram criados e que hoje
soam obsoletas. Eu procuro deixar o poema nu, sem estes fricotes e figurinos
de uma época tal. Busco a palavra crua, nua, verdadeira. Acho que
o "velho" está na cabeça de quem lê também. É
como se eu visse a Maria Antonieta, ou o Napoleão Bonaparte, nadando
pelados num rio, sem todas aquelas armaduras e espartilhos. Daí eles
me soam tão naturais como eu, tão humanos, capazes dos mesmos
sentimentos universais que eu. Lido assim com as palavras. E as pessoas.
Por que se você ficar na armadura, na casca, na reverência, não
tem a menor graça. Eu preciso escrever, creio que tenho uma
inclinação natural e inevitável pela literatura. Por
outro lado, não gosto de guetos, sou muito indisciplinada e nada formal
com as pessoas, com as instituições. Daí não
me sinto muito confortável no meio literário tradicional, que
flerta muito com o acadêmico, que tem uma certa pose intelectual, uma
afetação erudita. Claro que nem todos são assim! Mas
de maneira geral este é o tom. Por outro lado, também ser escritor
é totalmente solitário. O processo de criação,
o escritor sozinho e em silêncio na sua casa, no seu quarto, e depois
o processo de leitura, o leitor sozinho e silencioso no seu quarto. Eu já
me sinto solitária e profunda o suficiente, por natureza. Então
adolescente, me conhecendo, descobrindo, sabia que não poderia me
furtar à esta profundidade, este mergulho vertical na vida, que acredito
muitos poetas sentem como "chamado". Daí resolvi me embrenhar no teatro,
na música, ficar em contato com as pessoas, desenvolver a
comunicação, conectar com a vida simples, popular, sem torres
de marfim. Sobretudo, hoje eu sei, busco a celebração coletiva,
compartilhar a vida com as pessoas no momento presente. Procuro trazer toda
a verticalidade da literatura para a situação horizontal do
teatro, onde todos estão ali naquele momento e vão compartilhar
as sensações naqueles instantes, seja numa canção
ou num poema. Muito diferente do isolamento, do "egoísmo" da leitura
individual sozinha no meu quarto. Tem seu prazer esta "masturbação"
solitária, mas por enquanto prefiro os rituais coletivos, os "bacanais"
de arte e humanidade. Por outro lado, já escrevi livros e alguns foram
publicados. Digo nunca não or never. Quem sabe? Talvez quando eu ficar
velhinha...
Você constrói a base da tua obra sobre a lage deixada pelos
modernistas. Utiliza elementos da Tropicália, mas o faz de maneira
renovadora, surpreendendo. O que acha de grupos como o Nuvem Cigana e os
chamados poetas da geração
mimeógrafo?
Beatriz Azevedo Conheço só de nome estes grupos,
a geração mimeógrafo. Tenho simpatia, acredito que foram
jovens em seu tempo procurando se apropriar da poesia, sem tantos formalismos.
Mas não posso falar muito, porque não conheço de verdade.
Já com relação à antropofagia (muito mais do
que o Modernismo em si) e com a Tropicália, a ligação
é direta mesmo. Sinto que em diversas gerações surgiram
artistas que tem um jeito de ver o Brasil dentro do mundo e o mundo dentro
do Brasil, com os quais comungo desta percepção. Não
se trata de reverenciá-los ou tentar fazer parecido, como muitos fazem
por aí, porque o que mais me interessa na Tropicália, por exemplo,
não é nem o resultado, mas os impulsos primordiais, a força
motriz, a energia geradora é o que me toca até agora. Agora,
hoje, no meu próprio tempo, me sinto viva e criando diálogos
com o que me cerca, refletindo sobre o Brasil e o mundo, do meu jeito.
No Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira consta
que você nasceu no Rio de Janeiro. Verdade? Será que o Rio só
entrou na certidão de nascimento, ou teve alguma influência
no teu labor criativo?
Beatriz Azevedo É verdade, lá está assim,
e muita gente acha que eu sou carioca. Mas eu nasci na Avenida Paulista,
mêu. O que acontece é que minhas origens são mineiras,
de Ouro Preto, e cariocas, muitos tios e primos vivem no Rio. Além
de tudo, eu amo o mar, a natureza, a beleza, o curtir a vida com os pés
descalços na areia. Odeio poluição, barulho, stress,
a vida capitalista e brutal, o trânsito caótico. Por que será
que pensam que eu sou carioca (risos)? Com certeza o Rio está no que
eu faço, o humor, a graça, a leveza, a coisa mais suingada.
Sou mais das curvas do que das linhas retas.
Você tem forte vínculo com Zé Celso Martinez. Como
e quando vocês se conheceram?
Beatriz Azevedo Foi engraçado. Eu estudava artes
cênicas na Unicamp, e o Zé Celso foi lá fazer uma palestra,
porque a Universidade comprou o arquivo do Teatro Oficina. Antes eu ganhei
uma bolsa da Fapesp e estava estudando muito a obra de Oswald de Andrade,
a antropofagia especialmente. Tive a sorte de conhecer a filha de Oswald,
Marília de Andrade, bailarina, professora e chefe do Departamento
de Dança, enfim uma mulher madura, com filhas mais ou menos da minha
idade, mas que ficou muito minha amiga. Além do meu interesse pessoal
por antropofagia, ela me liberou acesso aos arquivos de Oswald, aos cadernos,
aos manuscritos inéditos, enfim um material riquíssimo e
desconhecido pelas pessoas. Porque o arquivo dele não estava nem
organizado, nem catalogado ainda. Eram pilhas de cadernos e anotações
dele. Somente pela proximidade com a sua filha Marília, eu tive o
privilégio de ser umas das primeiras pessoas a ler tudo aquilo. Vai
daí que na palestra do Zé Celso ele começou a falar
de antropofagia, de Oswald de Andrade, obviamente, ele também é
muito ligado nisso tudo. Aí levanta uma garota insolente de 18 anos,
recém ingressada na universidade, e questiona o mito Zé Celso
de frente. Era eu a petulante! Porque eu estava totalmente imersa na
antropofagia, literalmente, meus dedos tocavam diariamente os cadernos de
Oswald, eu tocava a letra dele, estava naquele momento vivendo aquilo por
dentro. O que eu sabia não era o tatibitati que as pessoas repetem
por aí sobre antropofagia, o já mastigado, que já se
tornara padrão. E na minha opinião, essa visão havia
banalizado a própria essência antropofágica. Bom o Zé
Celso é um gênio, um cara brilhante. Mas ele não sabia
o tesouro que estava ali na minha mão, já que eu estudava na
Unicamp e tinha acesso livre e intenso a coisas que ele desconhecia. Por
exemplo, um detalhe engraçado: ele começou a falar "Ôswald",
com acento inglês, forçando a sílaba forte no "ô",
como se convencionou chamá-lo desde a década de 60. A platéia
lotada de estudantes de teatro e de jornalistas. Eu interrompo e corrijo:
"Oswáld", acentuando a sílaba no "a". Ninguém entendeu
o que eu estava fazendo. Ele tentou prosseguir dizendo Ôswald e eu
interrompia dizendo Oswáld. A platéia começou a rir
achando que eu era maluca. Daí eu expliquei que o nome do cara não
era Ôswald, que ele nasceu em 1890 e que naquela época toda
a influência cultural no Brasil era européia, primordialmente
francesa, e que ele foi batizado de Oswald, soando em francês. Que
toda a geração dele o chamava de Oswáld, e críticos
como Antonio Cândido, que o conheceram pessoalmente nas décadas
de 20 a 50, conviveram com ele e ficavam putos com esse outro personagem
que surgiu na década de 60. Oswald morreu em 1954. E morreu não
só fisicamente, sua presença cultural, seus livros, tudo
desapareceu, ele ficou esquecido totalmente por muitos anos. Ninguém
falava mais dele. Daí na década de 60 os concretistas, os
irmãos Campos, depois os tropicalistas, Glauber, e especialmente o
Teatro Oficina, tudo isso ressuscitou Oswald de Andrade. Voltou-se a falar
dele. Mas como estávamos no auge do governo militar, e da influência
brutal da cultura norte-americana sobre o Brasil, desde a CIA até
a coca-cola, as pessoas passaram a dizer Ôswald com pronúncia
americana, na época o tal Lee Oswald aparecia na midia, etc... E o
Zé Celso dizia Ôswald!!! Bom, isso só para relatar o
contexto em que nos conhecemos, ele, o mito genial, e eu a fedelha petulante
de 18 anos que o questionava publicamente naquilo em que ele era o maior
entendedor. Mas como ele é realmente grande, ele não me odiou,
ao contrário, me amou! Foi amor à primeira vista! No outro
dia ele me ligava convidando para ir fazer parte do Teatro Oficina. Eu perguntei:
mas para fazer o quê? Eu sou estudante ainda, nem sei se eu sou atriz,
ou diretora, ou dramaturga, ou compositora, ou poeta ou nada disso. Ele
respondeu: aqui você pode ser tudo, a poeta tem carta branca, no Oficina
você vai fazer o que vc quiser, Beatriz. Eu fui, foi maravilhoso, aprendi
muito, tranquei a faculdade por um semestre, e depois voltei para concluir
a Unicamp, porque não gosto de deixar nada pela metade.
Você montou com ele, dentre outros trabalhos, um texto de Jean Genet,
Funâmbulo, que teve tradução tua. Você
domina o francês?
Beatriz Azevedo Eu gosto de poder conhecer outras línguas
para ler os poetas que amo no original. Mas não sou poliglota de jeito
nenhum. Apenas me viro bem no francês. O poeta José Paulo Paes
uma vez disse uma coisa com a qual me identifico muito. Ele traduzia textos
do grego, do russo, do francês. Muitos o achavam pretensioso. Perguntado
se ele dominava mesmo todas estas línguas, ele muito modesto e sincero
disse: Não, exatamente porque eu não domino estas línguas
é que eu traduzo. Como assim?, o incauto perguntou. E Paes respondeu:
se eu dominasse estas línguas todas, eu abriria os livros e sairia
lendo imediatamente, sem dificuldades, desfrutando do prazer da leitura.
Mas como eu não domino, preciso pegar o dicionário, estudar,
traduzir, senão não compreendo nada do que leio. Preciso ler
e reler milhões de vezes, até capturar o sentido daquilo. Aí
depois que já traduzi, com tanto trabalho e suor, aí eu publico,
né? Com Jean Genet foi assim. Eu me apaixonei por este texto e ele
ainda estava fugidio para mim, então mergulhei na tradução
do francês para o português para sentir que ele era meu de verdade.
Como trata da relação de um mestre - de circo - com um iniciado,
da poesia total da arte e da vida, chamei o Zé Celso para fazer comigo,
porque ele sabe de tudo aquilo que o Genet coloca ali.
Você encenou Hilda Hist no ano passado. O que achou do disco Ode
Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, produzido por
Zeca Baleiro, e centrado na escritora? Gostaria de ter participado dele?
Beatriz
Azevedo Achei muito bacana que o Zeca Baleiro tenha feito o projeto,
que tenha homenageado a Hilda. Gostei mais da iniciativa do que do resultado
artístico. Acho que não gostaria de ter participado deste disco
em si, porque ele tem uma visão muito "solene" da Hilda e da obra
dela. É meio passadista, tem um ar e umas linhas melódicas
que aprisionam a poesia da Hilda num tempo remoto, quase medieval. Repito,
achei extremamente válido que ele tenha feito este trabalho, eu só
não comungo desta visão sobre a Hilda. Tive o privilégio
de a conhecer diretamente, sem intermediários. Eu entendia completamente
as atitudes dela no sentido de "popularizar" o acesso à sua obra,
de cortejar alguém que estava na midia, de dizer que queria escrever
novela de televisão. Mas sinceramente acho que a obra dela não
"precisa" disso, está além, muito além. E hoje a profecia
se cumpre, ela tem muito mais leitores e admiradores no mundo inteiro. E
isto aconteceu não por "ajuda" de nomes famosos, mas pela força
da própria literatura dela.
Você, que viveu uma temporada em Nova York, como vê o trabalho
desenvolvido lá por músicos brasileiros como o Forro in The
Dark, e mesmo o de Vinícius Cantuária, teu parceiro, desde
que ele está nos States? Você imagina se radicando num outro
país para azeitar a carreira artística?
Beatriz Azevedo Eu convivi muito com eles nos anos em que morei
em Nova York, e também com Cyro Baptista. Gosto muito destes músicos
como amigos e como artistas. O Mauro Refosco e o Smokey Hormel do Forro in
The Dark, o Didi Gutman do Brazilian Girls, o Michael Leonhart, todos eles
tocaram na minha banda em Nova York. Fazíamos um som da pesada! O
Vinicius Cantuária é um grande compositor, um grande cara,
um amigo generoso, me convidava para dar umas canjas nos shows dele. O Cyro
também me abriu espaço no Beat the Donkey, uma banda multicultural
que é um barato! Eu já morei fora do Brasil, me adaptei super
bem. Sofro um pouco com o excesso de frio, em invernos muito longos eu quero
voltar correndo pro Brasil. Mas nunca se sabe, se pintar eu encaro.
Quando estará excursionando de novo pela Europa?
Beatriz Azevedo Em outubro e novembro estaremos na Europa.
Tem uns festivais a caminho. Espero que o CD Alegria seja
lançado também na Europa, porque as pessoas veriam o show e
poderiam levar para casa o trabalho. É sempre bom ter
Alegria em casa!
Texto: © Felipe Tadeu 2008 |
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