Felipe Tadeu
Eu sou um cara que costuma dar sorte com os vizinhos. Quando eu morava no Liége Tijuca, no apartamento de meus pais no Rio de Janeiro, que me abrigou por longos 25 anos, tinha um que morava no 105 e que se chamava Marco Brasil. Marco era da minha idade, mas àquela época ele andava muito mais curioso do que eu, em termos de conhecimentos musicais. Com apenas treze anos, ele já curtia discos do Triumvirat, um grupo de rock progressivo aqui da Alemanha, gostava de Azymuth e do som de uma dupla chamada Burnier & Cartier, que eu vivia escutando do chuveiro do nosso 306. "Foram pra Sao Paulo pra fazer dinheiro/ tava na cara ficaram nus, ficaram nus...", dizia a música mais legal deles, a "Ficaram Nus". A cançao vinha do primeiro andar, claro. Lá estava o Marco brasileiro botando suas bolachas pretas pra rolar na sua pick-up turbinada.
Marco é desses amigos-vizinhos que nao se esquece. Quem mais poderia ter me apresentado o álbum "Minas", de Milton Nascimento, senao o baixinho lá de baixo? A primeira vez que escutei "Wish You Were Here", aquele discaço sensacional do Pink Floyd que fazia a cabeça de um garoto como eu que, até entao, nunca tinha experimentado drogas, foi junto com o Marco também. Ah, e outro trabalho que me deixou bastante abismado com tamanha estranheza foi "Durante o Verao", de A Barca do Sol.
A Barca do Sol, a mesma que o pintor Carlos Pertius (descoberto pela doutora Nise da Silveira, do Museu do Inconsciente) deve ter visto passar no horizonte (e que depois virou um quadro fascinante dele)-, fazia um tipo de rock que eu nunca tinha ouvido igual. Gostei da banda logo de primeira, mas eles eram um grupo raro demais, raríssimo: era difícil encontrar um lp deles nas lojas. Shows deles,entao, nem se fala.
Até que um dia, ao abrir o jornal do meu bom pai, que era vascaíno doente e se interessava mais pelas páginas de esporte, do que pelos cadernos culturais, e me deparei com uma garota muito bonita que estava lançando seu disco de estréia, acompanhada pela Barca do Sol. Era Olivia Byington, que acabara de gravar "Corra o Risco", um álbum repleto de canções assinadas por integrantes da Barca, como Nando Carneiro, Muri Costa, Beto Resende e Jacques Morelembaum (sim, ele mesmo).
Um dos lances que mais me atraía nos discos da Barca do Sol eram as letras de Geraldo Carneiro, todas muito originais, de temáticas mágicas, líricas, modernas, sem parentesco algum com qualquer letrista brasileiro. Junto com o maninho dele, o Nando, os dois faziam coisas que nao estavam no mapa nem dos piratas. "Ouço os clarins na noite negra/ acho e capturo o mal da noite/ paro e me despeço do futuro./ Do pó rodando pela estrada/ O grito na garganta/ Os olhos na navalha./ O aço brilha no escuro.", dizia uma das parcerias deles,"Brilho da Noite", rascante como os tempos do obscurantismo da ditadura militar. Era música das boas, daquelas que deixam tudo em aberto, para o ouvinte fazer o seu próprio corte.(E eu penso: por que Cássia Eller nao gravou isso?).
Aquela Olivia ali já me deixou atento na segunda linha da reportagem do jornal do meu pai Sérgio. Nome bonito o dela também, igual ao de minha avó, a que eu nao conheci. Se eu tivesse uma filha, ela seria assim também: Olivia. Isabella, se fossem duas.
Mas até que o disco "Corra o Risco" caísse finalmente na roda das minhas amizades da Tijuca, precisaram rolar três anos. Mas quando isso aconteceu, eu já andava pra cima e pra baixo com os olhos vermelhos: leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa. Do jeito que cantava um dos secos & molhados. Olivia Byington, eu só descobri mesmo, com todos os segredos dela, quando eu já tinha dezenove, numa hora em que eu estava mais, digamos, esclarecido. E com olhos vermelhos.
A partir daquele momento, todas as outras cantoras que habitavam o meu quarto - Gal, Janis Joplin, Annie Haslam (do grupo de rock britânico Renaissance), Rô Rô, Joyce e Mercedes Sosa - seriam deslocadas em meu eixo sentimental. A garota que aceitava correr riscos cantando os versos de Geraldo Carneiro, de Joao Carlos Pádua e de Cacaso, elevava as canções da Barca às constelações mais inimagináveis, com seus doces agudos, seu vigor rock, sua sutil melancolia e seu charme de bad girl apaixonada. Nao era assim que ela soava em "Luz do Tango", parceria de Geraldo Carneiro e Astor Piazolla (sim, ele mesmo)? Ou em "Anjo Vadio", composta por ela mesma e por Geraldo?
O "Corra o Risco" de Olivia acabou entrando direto numa fitinha cassete que eu tenho até hoje e que eu levava junto comigo, na minha mochila, sempre que ía acampar com os amigos. Fazíamos audições incríveis na beira de cachoeiras, sentados debaixo de uma árvore, ou em pose de reis lagartos, prostrados ao sol, curtindo músicas como "Fantasma da Ópera", "Lady Jane", e a nao menos linda "Água e Vinho" de Egberto Gismonti, com letra de Geraldo. Éramos eu, Xandy Rocha (hoje baixista de No Olho da Rua, que toca samba-jazz nas melhores praias do Rio) e Beto Braga, dentre outros mais chegados. Nos reuníamos em Fragoso, em Visconde de Mauá, em Lumiar, ou mesmo na casa/estúdio deles no Grajaú, e ficávamos escutando o que era bom. Era muita diversao, muito aprendizado também.

Olivia Byington continuou sendo uma grande referência emocional para mim. Ela, que começou no rock, enveredou pela chamada mpb e por cancioneiros menos previsíveis com desenvoltura impressionante, encarando um repertório que só seria compatível sob interpretaçao dela: o Assis Valente de "Uva de Caminhao", a cançao cubana "Yo Digo que las Estrellas" de Silvio Rodrigues - uma preciosidade imensa na voz da cantora carioca -, ou no poema "Desassossego" de Fernando Pessoa, musicado por ela e pelo saxofonista Edgard Duvivier, seu ex-marido, com quem fez um álbum precioso, o "Melodia Sentimental", de 1987.
Dez discos depois de sua estréia na carreira, há exatamente trinta anos, Olivia Byington continua apostando no esmero da arte de cantar, fisgando cançoes que passam meio despercebidas pelos outros cantores, tudo com a mesma motivaçao de outrora. Ela, quieta, vai escrevendo a sua história, para aqueles que merecerem conhecê-la.
de 28 August 2008, 11:49 | 0 comentários
Felipe Tadeu
Quando encostei minha bike e entrei na Come Back, uma loja de cd's, vinil, dvd's e posters de segunda mão aqui em Darmstadt, cheguei decidido (como um ponta-de-lança africano, né Jorge?) para comprar um disco de Tom Zé, que estava disponível nas prateleiras há umas semanas.
Era um disco que saiu no Brasil há dois anos, o "Estudando o Pagode - Na Opereta Segregamulher e Amor". Além de admirador do tropicalista - o mais iconoclasta dentre eles - sempre estive atento para tudo que Suzana Salles grava desde a época em que ela estrelava os backing-vocals de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, os bardos da Vanguarda Paulista. No cd de Tom Zé, Suzana participa em seis faixas, o que aguçou total a minha intenção de comprar o disco. Pois bem, não perdi tempo.
Ao voltar para casa, pedaladas rua acima, percebi uma coincidência interessante: foi também comprando num sebo que David Byrne resgatou Tom
Zé do esquecimento a que tinha sido jogado no Brasil. O músico norte-americano relançou o baiano nos quatro cantos do mundo, fazendo uma coletânea muito bem transada como volume 4 da série "Brasil Classics", que o selo de Byrne, o Luaka Bop, pôs nas lojas. Em meados da década de 80, o talking-head entrara num sebo do Brasil e, vasculhando os tesouros empoeirados, encontrou o "Estudando o Samba", lançado em 1976. Byrne ouviu o disco, ficou louco por ele, e pôs a boca no trombone, salvando a vida do autor de "O Amor é Velho".
Um dia depois da compra, fui escutar o cd "Estudando o Pagode - Na Opereta Segregamulher e o Amor" cheio de curiosidade, até porque queria saber se Jair Oliveira, o produtor do álbum, tinha deixado Tom Zé fazer o que queria. Não gosto dos discos que Jair Oliveira lançou até hoje, tampouco curto os de Luciana Mello, irmã dele, que também participa do disco do baiano. Como o disco saíra no Brasil pela gravadora Trama - segundo domicílio de Jair Oliveira -, achei que a indicação do produtor pudesse ter sido determinada pelos chefes da casa, pois do contrário, não via muita liga entre a arte de Tom Zé e o trabalho de Jair.
Pois bem, maninha: caí do cavalo bonito. O disco do eterno tropicalista é um dos melhores títulos de sua carreira, e Jair Oliveira tem culpa nisso, assim como Luciana. É um manifesto de amor incondicional a todas as mulheres do mundo, uma opereta lúcida, destemida, apaixonada e, claro, caótica, que o artista de Irará desferiu contra os detentores do poder, os de dentro e os de fora do lar. É o acerto de contas definitivo com Lupicínio Rodrigues, um artista interessante, mas que se ralou no moralismo de seu tempo.
Não falo de demagogias, de feminismo barato, nem de marxismos assexuados, e sim de uma obra-de-arte excitada pela inteligência e pelo bom-humor, criada com a lábia de quem sabe das intrincadas diferenças que nos formam homens, mulheres ou muito mais que isso. Chega de dor de corno, de homicídio passional e escapadas exclusivas. E gozar sozinho é pouquinho.
Em "O Amor é um Rock", Suzana Salles empresta seus afinados agudos para potencializar versos que falam da incompatibilidade entre amor e gratidão na cabeça da grande maioria dos homens. No meio da canção, Suzana crava um punhal de guarânia no peito do malfeitor com "Meu Primeiro Amor", de Hermínio Gimenez, em versão abrasileirada de José Fortuna e Pinheirinho Junior (o nome dele é assim, juro!). Suzana gravara em 2004 um disco intitulado "Caipira" ao lado de Lenine Santos e Ivan Vilela, onde ela pinta e borda com um repertório caro à musicalidade brasileira, de um tal romantismo nosso escamoteado.
Já na faixa seguinte, no melhor momento do disco de Tom Zé, Suzana terça vozes com Zélia Duncan numa música que tem ares de Villa-Lobos, "Duas Opiniões". Um dueto perfeito de um disco que surpreende do início ao fim.
A Come Back fica a dez metros da Luisenplatz e está aberta de segunda a sábado, das 9 às 18 horas. Aos domingos ela fecha, pois os donos também transam.
de 02 August 2008, 23:00 | 11 comentários
Felipe Tadeu
Um dos shows mais inesquecíveis da minha vida foi um de Gilberto Gil, realizado no palco do Sesc-Tijuca, no Rio de Janeiro, no dia dos reis magos, em janeiro de 1979. Acompanhado de uma banda cintilante formada por Pepeu Gomes na guitarra, Djalma Correia na percussão, Rubão Sabino no baixo, Mu nos teclados e Jorginho Gomes na bateria, Gil repetiu no Brasil o estrondoso sucesso que obtera meses antes no Festival de Montreux, na Suíça, espetáculo que rendeu um dos poucos álbuns gravados ao vivo que prezo com zelo de mãe.
O ginásio do Sesc ficou em polvorosa com a performance do baiano, que naquela noite estrelada na Tijuca apresentou ao público, pela primeira vez, sua tocante versão para »No Woman, No Cry«, de Robert Nesta Marley. Estávamos amargando uma interminável ditadura militar e, até então, nenhum reggae interpretado por artista brasileiro tinha estourado nas rádios. Gil, arisco, tratou de corrigir tal absurdo e
fez de sua »Não Chore Mais« um marco na década, como uma das canções da trilha-sonora da anistia política no Brasil.
Nelson Motta, que também esteve presente neste show na Zona Norte do Rio, escreveu em sua coluna jornalística de então: »Demencial, demencial! Mais uma vez o adjetivo favorito da coluna é acionado – e poucas vezes o foi com tal precisão – para designar o que foi o show que marcou a re-volta de Gilberto Gil aos palcos brasileiros (...)«. (O artigo era »Gil fala de presos, alegra e esperanceia na folia de reis«, de 10 de janeiro de 1979).
O Sesc-Tijuca já se tornara bem antes um lugar sagrado para mim. Ainda que o bairro em que nasci e morava tivesse uma das maiores rendas per capita do Brasil, era miserável em termos de opção cultural: nenhum teatro decente, só cinemas na Praça Saens Penha, que se limitavam à exibição do trivial da indústria norte-americana. Portanto, quando o Sesc foi construído lá, nos anos 70, – a poucos metros de um dos maiores centros de tortura da ditadura, o temível quartel do Exército da Barão de Mesquita – ele surgiu como verdadeiro monumento à cultura, num cantão provinciano do Rio de Janeiro.
Foi em seu teatro que assisti o primeiro show »profissional« de música. A banda underground de rock Flávio y Spirito Santo foi tocar na Barão, levando cenário psicodélico e tudo, que um cenografista cabeludo criava no decorrer da apresentação. Munido de um pires transparente colocado sobre um projetor de imagens, ele pingava gotas de líquidos das mais diversas cores que, ao se mesclarem, compunham um visual alucinante. Parecia que eu estava em San Francisco, e Vila Isabel era ali do lado.
Bem, por que lembrar desses acontecimentos aqui e agora? O motivo não poderia me ser mais caro, pois o governo brasileiro está querendo enviar ao congresso nacional um projeto de lei, que retira parte significativa dos recursos do Sesc. A medida, altamente discutível, pretende criar mais um fundo de financiamento de programas de formação profissional.
Conhecendo os congressistas que dispomos e tendo acompanhado os serviços que o Sesc desenvolve no plano sócio-cultural desde a década de 70, surge inevitavelmente em mim o receio de que o plano do governo federal faça ruir um »Brasil-que-dá-certo«.
Quem costuma freqüentar bons espetáculos culturais e conhece um pouco dos bastidores das artes, sabe que o Sesc faz muito mais pelo Brasil do que qualquer ministro da cultura. O Sesc oferece atividades culturais de alto nível a preços realmente populares, levando a arte às periferias de grandes urbes, abrindo espaço generosamente em sua
programação a artistas que ainda procuram se firmar na carreira, ou que estejam sendo sucateados pelo estúpido mercado do entretenimento.
Foi graças ao Sesc que pude conhecer na tradicionalista Tijuca o teatro impressionante de Bia Lessa e a fascinante música de A Barca do Sol, por exemplo. Lá assisti também, em meados dos 70, um recém-chegado Zé Ramalho da Paraíba, que pousava no Sul Maravilha a bordo de sua canção »Avôhai«. Ele, o menestrel do apocalipse, que tanto encantamento nos causou, com seus extraordinários cordéis musicais do começo da carreira. Lisergia sertaneja, universos paralelos.
Em São Paulo, o Sesc iria ainda mais longe. Primeiro com a transformação de uma antiga fábrica no bairro da Pompéia, no centro cultural mais importante do Brasil nos 80. Eu, carioca, ficava abismado com a modernidade dos paulistanos, que já eram muito mais privilegiados do que eu, por terem em casa um jornal como a Folha de São Paulo, que também entrou fundo na minha memória afetiva, por ter reportado magistralmente a campanha das diretas-já, em 1984. A
querida Paulicéia de Itamar Assumpção, que já era desvairada desde a farra dos seminais modernistas de 22, me comovia pela audácia de seu cosmopolitismo. Quase que pedi asilo à Capitania de São Vicente.
Hoje, em maio de 2008, morando na Alemanha há 17 anos, soube do abaixo-assinado que estão organizando pela internet contra a intervenção do governo no Sesc e em outras entidades do chamado Sistema »S« (Senai, Senac e Sesi). Não ponho a minha mão no fogo por nenhuma outra »S«, mas o Sesc, ao que ainda me parece, cheira bem, muito bem. Assinei o manifesto articulado por Danilo Santos de Miranda
— diretor regional do Sesc-SP, e espero ansioso e atento, que o governo do Brasil repense a redução de 33% da receita do Sesc, em nome de uma suposta garantia de acesso de alunos da rede pública a cursos profissionalizantes.
Eu me pergunto: seria a Cultura o reverso da Educação?
ATUALIZAçãO DA MENSAGEM: DANILO MIRANDA, DIRETOR DO SESC-SP, PUBLICOU CARTA NO SITE DA ENTIDADE, SUSPENDENDO O ABAIXO-ASSINADO, POIS O GOVERNO FEDERAL VOLTOU ATRÁS E JÁ ACENOU COM POSTURA MAIS DEMOCRÁTICA. VIVA A NOSSA MOBILIZAçãO!!! VEJAM O INFORME:
esclarecimento ao público
Caros amigos, parceiros e freqüentadores do SESC:
O Governo Federal, dando início a um processo de diálogo sobre suas propostas para as entidades de formação profissional vinculadas ao empresariado, formou uma comissão com representantes daquelas entidades e das confederações empresariais que as mantêm e administram.
A pauta de discussões dessa comissão exclui a proposta de retirada de parte dos recursos das entidades de serviço social e desenvolvimento cultural, como o SESC, o que leva a crer que essa ameaça já não existe.
Por essa razão, estamos interrompendo nossas ações de mobilização em defesa do SESC. A resposta calorosa que recebemos de parte de dezenas de milhares de pessoas de todos os segmentos da sociedade nos dá a segurança da justiça de nossa posição e do reconhecimento com que nosso trabalho é retribuído por todos aqueles a quem se dirige.
Os resultados desse movimento ficarão armazenados em nossos registros, como a melhor defesa possível contra quaisquer iniciativas contrárias à existência e à atuação do SESC. Da mesma forma permanecerão nosso profundo agradecimento a todos os que, numa hora difícil, responderam a nosso apelo, bem como nosso compromisso de desenvolver um esforço permanente para corresponder sempre mais e melhor à confiança, às expectativas e ao merecimento de nosso público e da sociedade brasileira em geral.
Danilo Miranda,
diretor regional do SESCSP
de 22 May 2008, 10:18 | 1 comentários
Urariano Mota
O gancho, para quem não sabe, no jargão jornalístico, é um fato que se ligue, que dê margem a outro, que sirva de ponte, de gancho, enfim, para a notícia. É claro que o “gancho” é uma burrice repetida por gerações de repórteres e redações no Brasil. Assim, por exemplo, uma reportagem ou artigos sobre o terrorismo, somente será possível em 11 de setembro, e sempre em onzes de setembro. O gancho desconhece que os fatos, as notícias dos fatos se impõem por sua força, pelo inusitado, ou, notícia que os repórteres nem sonham, pelo tratamento. Sequer vêem que o mundo e a vida giram sem gancho. Que notícia, no inglês que tanto prezam, remete ao novo, e que o novo não é necessariamente o mais recente. Mas isto já seria esperar muito de quem corre e corre numa redação, para satisfazer um tempo de fábrica, de indústria, que associa Internacional aos Estados Unidos, que conhece a queima de florestas no Brasil somente no dia em que o NY Times noticia, e faz da Cultura o mesmo que show business. Seria esperar demais.
Onde, portanto, o gancho, antes que se pendure o autor nele? Aos fatos, nus e crus. Esta semana, recebi a honra da publicação de uma crítica a meu romance Os Corações Futuristas, no site www.novacultura.de . Ora, isso não acontece todos os dias. Quero dizer, um editor de um site na Alemanha sair de seus inúmeros trabalhos, ler um romance escrito em português, para sobre ele se curvar e escrever uma crítica, é meio raro. E é preciso que se acrescente, em um tempo de safadeza e canalhice geral, para elogiar um romance sem ganhar um só centavo por isso. Para falar pelo simples e humano fato de haver gostado da sua leitura. Diante disso, que faz este feliz autor? Ah, meus amigos, o quanto a felicidade é falaz, frágil e fugaz. O incauto autor, este incautor, liga para a redação de um dos jornais de sua província. Diálogo:
- Meu nome é Urariano....
- Quem?
- Urariano Mota, acrescento, porque eu sempre acho que o Mota ajuda muito.
- Sei..... e ????????
- Pois é, eu tive um romance que recebeu uma crítica favorável na Alemanha, e.... (Vou dizendo uma enxurrada de diabólicas asnices, numa enxurrada, que correm por uma Sibéria de gelo e silêncio.)
- Passe um mail.
- Eu já passei.
- Ah! É que hoje o sistema aqui no jornal travou, houve uma pane geral nos computadores. Ligue amanhã.
Chega amanhã. Ligo. Diálogo:
- Recebeu a mensagem?
- Deixa ver. Está aqui.... tererê, tererê....é. Olha, eu agora estou fechando a página.....Ligue amanhã.
Ligo. Diálogo:
- Aqui quem fala é Urariano...
- ?.... Você repete o assunto que a gente conversou antes? Aqui é uma correria...... hum, hum, sei, sei .... Sei. Claro, claro. Mas... Qual é o gancho?
- O gancho é um autor local receber uma crítica a um livro seu na Europa.
- E daí? O que tem a ver?
O leitor já vê que o chamado diálogo é uma composição de monólogos paralelos. De um lado, um autor envergonhado e pedinchão. De outro, uma jornalista que não vê a hora de se ver livre desse inconveniente. Na hora, isso evidentemente não ocorre a este autor. Na realidade, de um modo geral, os autores são péssimos no diálogo falado, ao vivo. Na hora, não lhe ocorre, não me ocorre dizer que o maior gancho é um autor ser conhecido em várias partes do mundo, Rússia, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, México, Argentina.... e ser absolutamente desconhecido na terra onde nasceu. Que isso é um fato tão paradoxal, tão irônico, que por si só mereceria uma notícia. Quando nada, um relato que recebesse o nome de O Gancho.
Na hora, apenas me ocorre perguntar:
- Se um cometa cair sobre a terra e abri-la ao meio, qual o gancho?
- O seu livro é um cometa?!
Sem resposta, desligo. E reconheço: isso, contado, ninguém acredita. Decididamente, essas coisas que acontecem à gente são muito sem gancho.
de 10 May 2008, 09:04 | 0 comentários
Urariano Mota
Quando Senna morreu, estávamos eu, Francesca, Lupicínio e Luanda, no bar de Eduardo, no mercado público da Encruzilhada. Tomávamos o café da manhã, naquele domingo de primeiro de maio. Sobre uma prateleira do bar o português ligara a televisão, para que os clientes assistissem a mais uma corrida de Fórmula 1. Com sinceridade, eu lhes digo que a televisão desligada, para mim, seria bem mais emocionante. Portanto, além de objetos coloridos que ao passar na tela deixavam um zumbido de vôo de abelhas, eu nada mais via. Me concentrava no cuscuz com galinha, que o safado do português dizia ser “à lisboeta”, para enaltecer o tempero e o preço de uma galinha à brasileira.
Súbito, um grito. Súbito, vários gritos. Os alcoólatras das primeiras horas do dia se levantam. “Estão bêbados”, me digo, e nem sequer olho para a televisão. Mas o som chega mais alto, e me viro para ver: Eduardo se esquecera de tudo, e se plantara bem juntinho à tela, como se surdo fosse. Ele parecia querer entrar em Ímola naquele instante, procurando entrar na imagem da televisão. Os bêbados e os sóbrios também se fecham, compactos, em pé. Então ouço, se não me falha a memória, “Senna bateu, Senna bateu ... o acidente é sério ... a cabeça dele se mexeu... ele está vivo...”, e mais adiante, “nós torcemos para que ele esteja vivo... é muito sério.... bateu a mais de 200 por hora... pelo amor de Deus, todos torcemos para que esteja vivo....”. Então eu soube que Senna havia sofrido um acidente, muito sério. Paguei a conta e saí. Notei que Eduardo nem contou o dinheiro pago.
No decorrer daquelas horas do domingo, eu e o resto da gente esperávamos mais uma vitória de Senna. Ele batera antes, outras vezes. Ele escapara milagrosamente de acidentes, para surgir em pé, em meio à poeira, imune, sem riscos, sem amasso no vinco do macacão. Era mais que um caubói, como um Clark Kent sem óculos 24 horas por dia, com um sorriso de kriptonita. “Se depender de mim, vocês, jornalistas, irão esgotar todos os adjetivos do dicionário”, dizia, entre uma corrida e outra. Aquilo passava, passaria, não podia mesmo ser muito sério. As pessoas, no entanto, não descolavam os olhos da televisão. Em dúvida, até o fim. Que foi: “Ayrton Senna está morto”.
Houve muita estupidez junta proclamada. Dos enfáticos, “Senna era o Brasil que dava certo”, até chegar aos bárbaros da nossa memória, que proclamavam, “O Brasil perde o seu maior herói”. Essas coisas, a formar um séqüito, terminaram por empanar o brilho real do seu real talento, da sua real pessoa, do seu real, à margem do seu valor em dólares. Havia nele, passada a tempestade das lágrimas, passada a rendição ao culto do espetáculo, passada a admiração por seu sucesso, havia nele uma disciplina, um método de trabalho, uma paixão pelo que fazia, que muito nos serve, a todos, corredores, sedentários, amantes das pistas ou das artes. Há nele, nesse homem que se foi aos 34 anos, um drama que reclama um criador, sim, um poeta, daqueles que ganham 400 reais por mês, daquele tipo de imortal brasileiro que é imortal porque não tem onde cair morto.
Somente agora, a distância de anos depois, ganhamos algo semelhante à sua frieza. Ainda que não tenhamos a sua fé. Aquela fé superpoderosa, que dizia, “Não tenho limites. Estou com 33 anos e acho que ainda tenho muito pela frente”. Nem mesmo o super-homem seria capaz de afirmar algo parecido. Clark Kent sempre soube que o excesso de exposição à kriptonita era o seu limite: matava.
de 11 March 2008, 17:19 | 0 comentários
Michael Kegler
Google Alert weckte mich heute mit dem Hinweis auf Andrzej Stasiuk: Fado. Reiseskizzen. Edition Suhrkamp, Frankfurt am Main 2008. 160S., 9,50 Euro. »Als Andrzej Stasiuk vor einigen Jahren in einem Taxi in die albanische Stadt Pogradec kam, spielte im Radio ein portugiesischer Fado, der haargenau auf den tieftraurigen Eindruck der chaotischen, grauen Stadt passte. Dieser melancholische Moment wurde das Leitmotiv von Stasiuks Buch Fado. Reiseskizzen, mit dem der in seiner Heimat sehr bedeutende polnische Autor sich gerade in Deutschland auf Lesereise befindet.« Mehr Fado ist nicht in dem Buch, aber dennoch: Als Leitmotiv hat diese portugiesischste aller künstlerischen Äußerungen nun also den Kontinent so gut wie durchquert.
Weiter im Norden singt man ihn sogar schon, den Fado und gibt ihm ausgerechnet im Land der monatelangen Winter den Untertitel »Sol«.

... und wer an einen Schabernack glaubt, liegt völlig falsch, denn die Portugiesen, die es in den Norden verschlagen hat, vermischen munter sonnige schwedische Volksmusik mit Fado reinsten Wassers – und machen damit richtig Stimmung:
... was nicht zuletzt ihrer Sängerin Liana zu verdanken ist, die auch als Solistin erfolgreich ist.
Wer mehr wissen will, über diese Süd-Nord-Fado-Connection, klickt sich auf Myspace durch oder geht gleich auf die Website www.stockholmlisboa.com.
de 10 March 2008, 11:48 | 0 comentários
Michael Kegler

Urariano Mota warnt in unserem Blog:
»Kinder in ganz Brasilien spielen schon das Foltern mithilfe von Plastiktüten nach«, und Felipe Tadeu pflichtet ihm in einem Kommentar bei:
»Tropa de Elite ist eine Verirrung, die unglücklicherweise Wiederhall findet in der brasilianischen Gesellschaft, welche sich ja auch immer noch als nicht rassistisch empfindet.«
Nun bekommt der Film also den Goldenen Bären. Zeit also, sich wieder einmal mit Ästhetisierung von Gewalt in – wo sonst? – Brasilien auseinandersetzen.
Zum Blog-Eintrag von Urariano Mota
Meinungen dazu? Bitte gerne ...
de 18 February 2008, 09:32 | 0 comentários
Michael Kegler
Uma das tarefas mais difíceis para um cronista deste encontro de literaturas, é encontrar um acesso à internet. Bendita a W-LAN, mas quem viaga apenas com um bloco de papel e um maço de cartões de visitas, se sente, de repente, um pouco desligado ... E ainda por cima, quem quer por que quer acompanhar o que acontece, no oficial e no »paralelo« não tem calma para sentar, repensar, escrever, formular, aquilo que há pouco ouviu, viveu, vivencio, pois enquanto escreve, algo muito mais importante e interessante pode acontecer.
Não tenho inveja nenhuma dos jornalistas profissional, de bloco, gravador e prazos marcados, que acompanham as correntes acorrentados às vezes ao seu trabalho, e enquanto a malta vai aos copos e aos projectos não oficias, se trancam nos seus quartos do hotel para deixar o mundo a par de tudo que foi falado e bolado. E sinto ao mesmo tempo uma grande gratidão, pois uma simples procura no google ou seja onde for, dispensa aquilo que eu pretendia fazer, e não consegui: cronicar em directo, aquilo que são e o que é as »Correntes d`Escritas 2008«.
Remeto portanto ao site oficial das Correntes d`Escritas 2008,
despeço me por enquanto, pois há mais coisas a ouvir e presenciar, muitos livros a comprar, e como prova de que realmente não fiquei à toa, deixo-vos aqui uma foto (da autoria de um dos fotógrafos oficiais das Correntes d`Escritas):

de 16 February 2008, 11:45 | 2 comentários
Michael Kegler
no quiosque do hotel já não há SG Filtro - só »lights«. Poetas fumam à porta dos fundos, de vista para o mar. É saudável fumar ao ar livre!
Na véspera da abertura oficial, no imposante Casino da Póvoa, as »Correntes« já começaram com lançamentos de livros no Hotel Vermar - nome tão emblemático para um lugar que por cinco dias se transformará num espaço mítico de convívio e letras. Como já é de costume, nesta nona edição das Correntes d´Escritas.
Encontro poetas que dormiram menos de três horas, e mais à noitinha posso apreciar um dos livros lançados na véspera: Admiravel diamante bruto e outros contos, de Waldir Araújo. Alguns dos contos já conheço, do Blog »Rio Geba«. Grande estréia, há muito esperada.
Mas a primeira surpresa, um dos momentos que ficarão para sempre, já acontece à primeira »mesa«, no auditório municipal, com o tema »Dar Palavra à Voz«. Aurelino Costa (»a voz existe independente da palavra«) é viva prova de que este postulado não é um mero jogo de palavras, Manuela Azevedo (dos Clã) cita e declama Arnaldo Antunes (em comparação a Sérgio Godinho e Farnendo Pessoa) - momentos de arrepiar, e no final, Carlos do Carmo canta -a capella - uma canção de Manuel Rui. Nada a acrescentar!
Já valeu a pena a viagem.
P.S: Sempre há algo a acrescentar. Já ninguém fuma à mesa em Portugal. É melhor para a voz, isso sim, e à noite, as pessoas se movimentam, por entre as poltronas do poético Hotel Vermar à porta dos fundos ... Muito comunicativo, e lindo, a ver o céu de estrelas na Póvoa de Varzim.
de 14 February 2008, 12:30 | 0 comentários
Felipe Tadeu
Quando a imprensa divulgou, anos atrás, que o jornalista Nelson Motta iria se encarregar de contar em livro a vida de Tim Maia, não tive dúvidas de que seria uma ótima biografia. Quando Nelson deixa de lado sua faceta de romancista para fazer o que realmente sabe - jornalismo musical -, o leitor sempre sai ganhando em termos de informação e entretenimento. Depois de acertar a mão em "Noites Tropicais" (2000), Nelson se superou com o recente "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", que ganhou as ruas sob a tutela da editora Objetiva.
Seja ainda como compositor ou produtor de eventos inesquecíveis, Nelson Motta sempre foi um cara qualificado para tratar de música. Como escritor, sabe solar e arranjar, tendo um estilo muito envolvente de narrativa e a mente sempre aberta, sem nutrir preconceitos contra o pop. Nelson foi ainda por cima amigo de Tim Maia, com quem trabalhou e curtiu muitos baratos e dores de cabeça.
O porte do biografado já era um dado que contava a favor do jornalista, pois Sebastião Rodrigues Maia, o líder máximo da legendária banda Vitória Régia, foi um artista personalíssimo no contexto da música brasileira: em português mais claro, um senhor figuraça. Descobridor dos sete mares, Tim cruzou o baião e o samba com gêneros antes incompatíveis como o soul e o funk norte-americanos, fazendo impor sua moral com aquele vozeirão abençoado com que cavava seu lugar no mundo.
Como um dos integrantes da turma do Bar Divino, na Tijuca, Rio de Janeiro, de onde saíram os reis da Jovem Guarda Roberto & Erasmo Carlos, além do seminal Jorge Ben (dentre outros), Tim sempre fôra um intérprete poderosíssimo. Habilidoso como compositor, freqüentou as paradas de sucesso durante quase toda a sua carreira, seja cantando baladas de amor ou soltando seus rojões de baile, sucessos absolutos como "Sossego", "Do Leme ao Pontal", "A Festa do Santo Reis" ou "Rodésia".
Nelson Motta acompanhou de perto a explosão de Tim Maia como cantor e também como encrenqueiro sindicalizado (seu mais corriqueiro delito era não comparecer a shows para os quais fôra contratado). Dos primeiros furtos inocentes na Tijuca à passagem pelas prisões nos Estados Unidos (onde Tim viu a cena black florescendo em plenos 60), o jornalista descreve a turbulenta saga do "síndico" com humor providencial, revelando momentos incríveis da vida de Tim, como de sua adesão à seita da Cultura Racional, com quem se meteu em 1975 e, inspirado, criou uma de suas obras-primas, o álbum duplo Tim Maia Racional, que foi relançado há pouco pela gravadora Trama.
A biografia relata também sobre o curioso movimento Black Rio, que existiu na cidade do samba nos anos 70 e reunia nomes que íam de Cassiano a Carlos Dafé, passando por Hyldon, pela Banda Black Rio, Os Diagonais e etc. Uma cena que ainda precisa ser abordada em livro exclusivo, tal a riqueza dos fatos musicais de então.
A leitura deste novo livro de Nelson Motta foi quase que ininterrupta, num deleite total para mim, o "espectador" na Alemanha. Devoram-se as 389 páginas da biografia com a mesma sanha com que Tim abria a geladeira para fazer seus lanchinhos épicos e sarar suas laricas. É um livro muito engraçado.
"Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia" foi um presente e tanto que minha amiga Bete Köninger trouxe do Brasil, no meio de sua bagagem de máscaras de mergulhadora, tubos de oxigênio e pés-de-pato. Bete, sim, é que conhece o Azul da Cor do Mar.
de 12 February 2008, 21:11 | 3 comentários


