Olivia Byington - Lady Jane no outono alemão.


Eu sou um cara que costuma dar sorte com os vizinhos. Quando eu morava no Liége Tijuca, no apartamento de meus pais no Rio de Janeiro, que me abrigou por longos 25 anos, tinha um que morava no 105 e que se chamava Marco Brasil. Marco era da minha idade, mas àquela época ele andava muito mais curioso do que eu, em termos de conhecimentos musicais. Com apenas treze anos, ele já curtia discos do Triumvirat, um grupo de rock progressivo aqui da Alemanha, gostava de Azymuth e do som de uma dupla chamada Burnier & Cartier, que eu vivia escutando do chuveiro do nosso 306. "Foram pra São Paulo pra fazer dinheiro/ tava na cara ficaram nus, ficaram nus...", dizia a música mais legal deles, a "Ficaram Nus". A canção vinha do primeiro andar, claro. Lá estava o Marco brasileiro botando suas bolachas pretas pra rolar na sua pick-up turbinada.

Marco é desses amigos-vizinhos que a gente não esquece. Quem mais poderia ter me apresentado o álbum "Minas", de Milton Nascimento, senão ele? Foi junto com o Marco também que ouvi pela primeira vez o "Wish You Were Here", aquele discaço sensacional do Pink Floyd, que fazia a cabeça de um garoto como eu que, até então, nunca tinha experimentado erva alguma. Ah, e outro trabalho que me deixou bastante abismado com tamanha estranheza foi "Durante o Verão", da A Barca do Sol.

A Barca do Sol, a mesma que o desenhista Carlos Pertius (descoberto pela doutora Nise da Silveira, do Museu do Inconsciente) deve ter visto passar no horizonte (e que depois virou uma obra fascinante dele)-, fazia um tipo de rock que eu nunca tinha ouvido igual. Gostei da banda logo de cara, mas eles eram um grupo raro demais, raríssimo: era difícil encontrar um lp deles nas lojas. Shows deles,então, nem se fala.

Até que um dia, ao abrir o jornal do meu bom pai, que era vascaíno doente e se interessava mais pelas páginas de esporte do que pelos cadernos culturais, e me deparei com uma garota muito bonita que estava lançando seu disco de estréia, acompanhada pela Barca do Sol. Era Olivia Byington, que acabara de gravar "Corra o Risco", um álbum repleto de canções assinadas por integrantes da Barca, como Nando Carneiro, Muri Costa, Beto Resende e Jacques Morelembaum (sim, ele mesmo).



Um dos lances que mais me atraía nos discos do grupo eram as letras de Geraldo Carneiro, todas muito originais, de temáticas mágicas, líricas, modernas, de um poeta sem parentesco algum com qualquer letrista brasileiro. Junto com o maninho dele, o Nando, os dois faziam coisas que não estavam no mapa nem dos piratas. "Ouço os clarins na noite negra/ acho e capturo o mal da noite/ paro e me despeço do futuro./ Do pó rodando pela estrada/ O grito na garganta/ Os olhos na navalha./ O aço brilha no escuro.", dizia uma das parcerias deles,"Brilho da Noite", rascante como os tempos do obscurantismo da ditadura militar. Era música das boas, daquelas que deixam tudo em aberto, para o ouvinte fazer o seu próprio corte.(E eu penso: por que Cássia Eller também não gravou isso?).

Aquela Olivia ali já me deixou atento na segunda linha da reportagem do jornal do meu pai Sérgio. Nome bonito o dela também, igual ao de minha avó, a que eu não conheci. Se eu tivesse uma filha, ela seria assim também: Olivia. E Isabella, se fossem duas.

Mas até que o disco "Corra o Risco" caísse finalmente na roda das minhas amizades, em 1981, eu já estava com meus dezenove anos. A partir daquele momento, todas as outras cantoras que habitavam o meu quarto - Gal, Janis Joplin, Annie Haslam (do grupo de rock britânico Renaissance), Rô Rô, Joyce e Mercedes Sosa - seriam deslocadas em meu eixo sentimental. A garota que aceitava correr riscos libertando os versos de Geraldo Carneiro, de João Carlos Pádua e de Cacaso, elevava as canções da Barca às constelações mais inimagináveis, com seus doces agudos, seu vigor rock, sua sutil melancolia e seu charme de bad girl apaixonada. Não era assim que ela soava em "Luz do Tango", parceria de Geraldo Carneiro e Astor Piazolla (sim, ele mesmo)? Ou em "Anjo Vadio", composta por ela mesma e por Geraldo?

O "Corra o Risco" de Olivia acabou entrando direto numa fitinha cassete que eu tenho até hoje e que eu levava junto comigo, na minha mochila, sempre que ía acampar com os amigos. Fazíamos audições incríveis na beira de cachoeiras, sentados debaixo de uma árvore, ou em pose de reis lagartos, prostrados ao sol, curtindo músicas como "Fantasma da Ópera", "Lady Jane", "Jardim de Infância" e a não menos linda "Água e Vinho" de Egberto Gismonti, com letra de Geraldo. Éramos eu, Xandy Rocha (hoje, um ótimo baixista) e Beto Braga, dentre outros mais chegados. Nos reuníamos em Fragoso, em Visconde de Mauá, em Lumiar, ou mesmo na casa/estúdio deles no Grajaú, e ficávamos escutando o que era bom. Era muita diversão, e muito aprendizado também.



Olivia Byington continuou sendo uma grande referência emocional para mim. Ela, que começou no rock, enveredou pela chamada mpb e por cancioneiros menos previsíveis com uma desenvoltura impressionante, encarando um repertório que só seria compatível sob interpretação dela: o Assis Valente de "Uva de Caminhão", a canção cubana "Yo Digo que las Estrellas" de Silvio Rodrigues - uma preciosidade imensa na voz da cantora carioca -, ou no poema "Desassossego" de Fernando Pessoa, musicado por ela e pelo saxofonista Edgard Duvivier, seu ex-marido, com quem fez um álbum de grande delicadeza, o "Melodia Sentimental", de 1987.

Dez discos depois de sua estréia na carreira, ocorrida há exatamente trinta anos, Olivia Byington continua apostando no esmero da arte de cantar, lapidando canções que passam despercebidas pelos outros artistas, tudo com a mesma motivação de outrora. Hoje, ela se dá ao luxo inclusive de compor, com regularidade ainda maior, suas próprias músicas. Olivia, discreta, vai escrevendo a sua história, para aqueles que merecerem conhecê-la.

Pois bem, Frau Byington, seja benvinda à Alemanha!


Felipe Tadeu

comentários / kommentare

< Tom Zé - Perto da Praça das Luísas Pais e Filhos, o conflito >

fala, felipe, muito legal o texto. um texto delicado, partindo do biográfico e chegando à admiração pela olivia. gostei, todo um fundo de brincadeiras irônicas, também divertida, como o nome da filha, que anuncia olivia e depois vem também a isabela. a lembrança dos velhos amigos, como o xande. legal. parabéns. abração, beto

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Oi Felipe,
A Barca do Sol, bela lembrança, faz tempo né?
Nossa, você me fez voltar a adolescencia. Como eu lembro desse tempo, o Marquinho me apresentou muita musica boa e eu ficava impressionada, como aquele moleque, meu primo querido, descobria tudo aquilo.
Lindo texto, pra quem conhece relembrar e quem não conhece ter uma boa idéia de quem é essa cantora incrível e ter vontade de conhecer.
Olivia sempre foi maravilhosa, figurinha fácil no Circo Voador dos bons tempos, pena que agora apareça tão pouco por aqui.
Beijos
Elayne



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Eu estava lá, tive a honra de acompanhar esta Bildung de Felipe, como primo mais chegado da família. Eu pessoalmente ficava siderado com a Lady Jane. Tudo isso que ele conta é absoluta verdade. Já disse isso em outra ocasião e volto a dizer: O Felipe tem a trajetória de vida mais coerente que já vi passar. Desde pequeno apaixonado pela MPB, e hoje fazendo uma bela carreira no exterior, promovendo a nossa música. Já disse também que a Embaixada do Brasil na Alemanha dorme de touca ao não chamar o Felipe para uns papos e eventuais projetos. Felipe é o verdadeiro embaixador da musica brasileira na Alemanha. Merecia uma comenda. E tenho dito!

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Oi Felipe,
Muito legal seu texto. Aquela história do seu amigo que te apresentou discos maravilhosos é ótima. Também tive um amigo assim, hoje muito famoso, que chegou a dar canja num show da Barca no M.A.M. aqui no Rio, quando ainda estava começando, o Leo Gandelman. Pode imaginar? O Leo foi aquele amigo-discoteca. Ele tinha uma coleção sensacional. Passamos muitas tardes ouvindo muito som legal.

Interessante que, um grupo como a Barca, já desfeito a quase 30 anos, ainda permaneça no coração e nas lembranças daqueles que o conheçaram e ainda continua arrebanhando fãs pelo mundo todo. Tem uma música do CD Pirata, que virou música de ninar entre várias mães daquela época: Galopa cavalo marinho me ensina o caminho que devo tomar...

abs

Alain

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Olá Felipe...
Que ótimo texto cara.
Engraçado, conheci Olivia enquanto ela navegava pela Barca do Sol. Ótimo disco esse. Se distrair um pouco a lágrima corre mesmo.
Abraço

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Lady Jane... eu sinto o cheiro dos esgostos no chão ... na Leopoldina e quando entro na Ilha do Governador.
Essa música me marcou tanto ! mas não tive a tua sorte de ouvir mais a Barca. Ouvi mais o Terço, Rita Lee entre outros.
Seu texto Felipe está delicioso. O mouse é capaz de pular e me morder se eu tentar clicar no cursor para andar rápido. Liás nem tem porque correr, dá vontade é de ler denovo. e again e again. Vc está fazendo o texto ficar com alma e as fotos ficaram em momentos certos do texto, merecia um clipe!
abraços niteroense de uma botafoguense

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Eu tive um sonho estranho, ah, Lady Jane... É Felipe, o teu texto me fez sonhar, voltando ao meu encontro com a Olívia e A Barca do Sol, ambos apresentados aos meus ouvidos por você. Abri as portas e eles não saíram mais. Corri atrás de cds da Barca do Sol e encontrei!! A Olívia, hoje madura em seu processo criativo, meio que some e aparece, sem deixar de lado o foco no canto cuidadosao e estudado e, por que não, sofisticado. Bons ventos a levem pra Alemanha. E que bom você poder recebê-la. Ninguém poderia fazer melhor. Bjs

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Parece que foi ontem cara(a gente subindo a rua Uruguai e dobrando na Barão de Mesquita)felizes por estar caminhando em direção ao mundo da música,mundo este,que não sai até hoje.
Estes dias foram decisivos na pra mim,dentro deles pavimentei a estrada da minha vida.Ler suas palavras encheu meu coração de alegria Felipe,das descobertas de uns garotos da Tijuca nasceu uma puta paixão pela música (que só faz unir as pessoas).Quando garoto na Tijuca eu aprendi muito com o Marco Brasil,mas com você continuo aprendendo cara,valeu!
Um abraço do Xandy Rocha

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Põ cara... vc. é um arquivo musical e do entorno destas obras e tanto. De memórias nem se fala... num pode mais sair da minha vida . vc. é a garantia das lembranças! estudio do grajaú... tinha esquecido, mas passei por lá. barca do sol tb. festa em um apto. vazio os pais fora do rio, experiência meio angustiante q. vc. e Xandy me ajudaram... enfim... Ah! tem tb. os mineiros, q. já conhecia, mas com vc. Sô e Xandy, ouvia sempre. vem cá, sê tava comigo no Show da Apoteose onde Minton soltou a voz numa canção... esqueci o nome ... mas refrão \"... como uma pêra se esquece dormindo sobre a fruteira... \" absendei , diz ai!

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Interessante como me identifiquei com este relato seu. Por acaso também tenho um amigo que me apresentou a várias correntes musicais. Quanto tempo tem... Obrigada pela boas influências!
bjs

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olá amigo...vc me fez voltar no tempo, já tinha me esquecido dessa época. É incrível como vivemos as mesmas coisas em lugares diferentes, lembra da estória do disco da Bethânia? Adoro seus textos, vc sabe que quando estava grávida de Alice a outra opção era Olívia? Mas achamos melhor não arriscar na Olívia Palito, Alice venceu!
Beijão, saudades de todos, inclusive dos tomates do Gugo!!!

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Olivia é linda demais. esse disco identidade é de fazer chorar!
beijos

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Belo depoimento, para uma bela mulher, artista de primeira linha. A Olivia é uma gata muito linda e canta como uma sereia. Não gosto muito do repertório dela, mas fico encantado só de ouvi-la cantar, com aquele jeitinho de mulher linda, que sabe que é, e ao mesmo tempo, não explora isso, apenas é. E como ela é generosa em compartilhar, com os outros, sua beleza, talento e espírito. A Alemanha se deu bem... Sucesso para Olivia na Europa.
Obrigado Felipe por proporcionar esse meu reencontro com a Olivia.

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Grande Felipe, Grande Texto! Bons tempos cara, eu vi a Barca pela primeira vez em um show lá pelo fim dos anos 70, época do Ritchie como flautista (sabia?), depois veio o David Ganc. Foi no período que aquela malditadura começou a abrandar, mas ainda assustava bastante, tinha muita gente boa surgindo, a galera paulista no início da década de 80, Premê, Língua de Trapo, Rumo, o retorno do Joelho de Porco do Tico Terpins, o Céu da Boca aqui no Rio, Juca Filho, nossa, saudade. Poucos anos depois assisti alguns shows da Olivia, com e sem a Barca, era a paixão de todo mundo. Aquele clima que rolava nos acampamentos, nas praças, na rua, me sinto privilegiado por ter vivido tudo isso. Grande abraço meu amigo!!

< Tom Zé - Perto da Praça das Luísas Pais e Filhos, o conflito >

Phillip,

A distancia e o tempo tem dessas coisas: o nome Olivia Byington me é familiar mas não lembro se já a escutei (numa dessas até em show já fui mas, como certos filmes, esqueci rápido) :-)

Amplexos

Sergio

< Tom Zé - Perto da Praça das Luísas Pais e Filhos, o conflito >

Eu assisti a este show várias vezes em Porto Alegre, no StudioClio, e não canso de amá-lo: é um belo espetáculo, que recomendo a todos. Olívia é uma artista sobrevivente, não soçobrou nos escolhos da máquina fonográfica, segue seu caminho sensível, lírico, criativo... uma beleza. Eu moro em Heidelberg e vou a Frankfurt ver o show.

< Tom Zé - Perto da Praça das Luísas Pais e Filhos, o conflito >

Oi Felipe,

curti muito esse seu texto. Uma viagem no tempo e uma grande declaracao de amor!

Foi muito bom conhecer a Olivia e a filha dela. Fiquei emocionada com o show. Quem sabe podemos traze-la novamente no futuro. bjs

< Tom Zé - Perto da Praça das Luísas Pais e Filhos, o conflito >

Eu dou azar com vizinhos! Mas nenhum me deu um tiro até hoje

< Tom Zé - Perto da Praça das Luísas Pais e Filhos, o conflito >

Oi Felipe, adorei o tópico! Sou fã da Barca do Sol e ouço regularmente as músicas do grupo. Sempre que faziam shows aqui em SP, lá estava eu com minha irmã na fila da frente prá não perder nenhum acorde. E eles eram bons, viu. Tenho até um disco autografado por cada um dos integrantes.
Conheci a Olívia quando se apresentou na Globo cantando Lady Jane. Sou soprano e quando soube que ela tinha formação clássica, me apaixonei por sua voz e seu trabalho.
Quando fazíamos nossa roda de violão eu sempre cantava esta música. Marcou muito a minha adolescência.

Outra música muito linda é O Abraço e a Lágrima.
Tomo a liberdade de publicar aqui a poesia:

\"Ah como ser tanta emoção
Na harmonia do abraço
E ser somente esse abraço
Num continente de afeto
O corpo completo sente
Que repleto não se cabe
É o coração em despejo
É a lágrima em seu trajeto
Que zelosa evita o lábio
Para não salgar o beijo\"

:)

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