José Saramago publica
agora o seu primeiro romance pós-Nobel, dois anos passados sobre a
atribuição do prémio pela Academia sueca. Tem por
título "A Caverna" e completa a trilogia iniciada com "Ensaio Sobre
a Cegueira" (1995) e "Todos os Nomes" (1998), a "sua forma de ver o mundo
neste final de milénio". Entrevistado pela revista "Visão"
(26/10/00), o escritor disse a propósito da trilogia: " (os três
livros) têm, de facto, uma identidade própria. Em primeiro lugar,
do ponto de vista formal, são alegorias. Depois, têm todos um
estilo mais sóbrio, mais directo, menos expansivo, menos "barroco".
E, por último, de uma maneira mais ou menos metafórica, eles
são o que chamo a diferença entre a estátua e a pedra.
Diria que ao contemplarmos a estátua, não estamos a pensar
na pedra que está para além da superfície trabalhada
pelo escultor. Agora, já não é a estátua que
me interessa, mas a pedra que a faz. (...) Estes três últimos
livros são tentativas de ir além da superfície, ver
o que está lá dentro e, provavelmente, perder-me no seu interior...
O que me preocupa neste momento é saber: que diabo de gente somos
nós?"
Por tudo isto, e apesar
de como consequência da atribuição do Nobel da Literatura
o escritor se ter desdobrado em viagens, conferências, entrevistas,
fez questão de que o romance fosse publicado ainda este ano, o
último do século e do milénio. "A Caverna" tem naturalmente
que ver com a caverna da alegoria de Platão, que o escritor considera
mais "actual" que nunca. " A nossa vida está a converter-se em virtual
e nunca, como agora, vivemos tanto tempo dentro daquilo que Platão
imaginou ser a "caverna". O lugar onde as pessoas estão sentadas,
olhando em frente, para uma parede por onde passam sombras, julgando que
essas sombras são a realidade. Se isto não é o dia de
hoje... não sei o que diga." ("Visão", ib.) Uma sociedade onde
os centros comerciais se tornaram as "catedrais" e as "universidades" dos
nossos dias, onde as pessoas, de um modo geral, deixaram de pensar, onde
a distância entre ricos e pobres, os que sabem e os que não
sabem, se acentua ("Trata-se, de certa forma, de uma nova Idade Média
- uma minoria culta e, depois, uma massa enorme de ignorância."
"Visão", ib.). Por isso é necessária uma nova
"formação das mentalidades". |