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Solo para Pina Bausch Caetano Veloso brilha
em festival da coraógrafa alemã
Wuppertal, Alemanha - O doce bárbaro de Santo Amaro fechou sua
turnê européia de 2001 participando no dia 14 de outubro do
festival internacional de cultura organizado pela prestigiada coreógrafa
Pina Bausch e sua companhia, o Wuppertaler Tanztheater. Caetano, que já
tinha sido em 1998 uma das maiores estrelas das comemorações
dos 25 anos do grupo de Pina, fez um show solo em que se deu ao requinte
de interpretar canções em francês, italiano, espanhol,
inglês e, claro, português, encantando do começo ao fim
uma platéia tão serena, quanto extasiada
Era uma homenagem das mais
condizentes à essa artista que possui bailarinos das mais diversas
partes do mundo e que surpreende Caetano desde a montagem que ele assistiu
anos atrás de «Um Grito Ouviu-se na Montanha», no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro. «Fiquei completamente apaixonado pelo
espírito da obra dela, que tem uma vida impressionante, rara em artes
da representação», afirmou Caetano, que já tinha
gravado a marchinha carnavalesca «Dama das Camélias», de
Braguinha e Alcir Pires Vermelho, como um tributo à Pina em seu
álbum «Omaggio a Federico e Giulietta», de 1999.
O festival deste ano, que aconteceu de 12 a 28 de outubro, trouxe como destaques
o coreógrafo e dançarino japonês Saburo Teshigawara,
o violinista húngaro Félix Lajkó, além do diretor
espanhol Pedro Almodóvar, que terá três de seus filmes
exibidos no evento. Outro brasileiro convidado por Pina Bausch para a mostra
de cultura foi o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos.
Vários espetáculos de Pina foram reapresentados como «Os
Sete Pecados Capitais», «Venha Dançar Comigo», «O
Dido», além da sua útima peça, inspirada no Brasil,
que ela vem apresentando pelo mundo afora com sucesso.
Carisma à toda prova
O show de Caetano Veloso bem que poderia ter durado mais do que os seus setenta
minutos. A platéia que lotou os setecentos lugares da Schauspielhaus
pagou cerca de oitenta reais pelo ingresso e parecia não querer voltar
mais para casa, depois que ouviu «Coração Vagabundo»,
«Cajuína», «Menino do Rio», «Terra»
e a porto-riquenha «Lamento Borincano», dentre outras. A inclusão
no roteiro de «Manhatã», composição que Caetano
escreveu sobre Manhattan, Nova York, extraída do disco Livro, de 1997,
foi muito oportuna, dando densidade comovente ao concerto, com seus versos
tornados mais trágicos depois dos ataques ao World Trade Center:
«todos os homens do mundo/ voltaram os seus olhos para aquela
direção» (...) «e aqui dançam guerras/ no
meio da paz das moradas de amor».
Caetano iniciou sua performance com muita timidez, mas a reverência
a Bertolt Brecht e Kurt Weill com Stars Fall on Alabama já insinuava
que o tropicalista estava afiado para o evento. E o cenário não
poderia ter sido mais feliz, com um rochedo litorâneo criado por Peter
Pabst para Masurca Fogo, peça encenada minutos antes. Ali, como que
à beira-mar, Caetano foi de «Qualquer Coisa» a
«Leãozinho», espalhando aquele sorriso largo que os
caricaturistas tanto adoram. Desacostumado com tanta passividade da
platéia, o artista começou a instigar os poucos brasileiros
presentes a subverter o silêncio do público, no que foi atendido
prontamente.
O grande momento da noite nasceu de um comentário que Caetano fez
para Peter Pabst à época em que ele tinha assistido Masurca
Fogo pela primeira vez, em São Paulo. O cantor e compositor baiano
tinha imaginado que cantava «Garota de Ipanema» na cena em que
as bailarinas do espetáculo aparecem deitadas sobre o rochedo. Resultado:
o coreógrafo topou com entusiasmo a sugestão involuntária
de Caetano e quando o músico começou a cantar o clássico
de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, as meninas de Pina reentraram no
palco para se banhar ao sol sobre as pedras do cenário. A platéia
foi ao delírio e com ela um Caetano em total estado de graça.
Felipe Tadeu
brasilkult@aol.com
Links:
pina-bausch.de
caetanoveloso.com.br |
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Felipe
Tadeu, 39,
é jornalista especializado em música brasileira e produtor
do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado
na Alemanha
desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila.
email:
brasilkult@aol.com
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